À distância, um oásis

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
por Nuedos

Sobrevivemos ao tempo. Sobrevivemos?
As tamareiras recendiam maduras ao sol, e crianças corriam pelo oásis a anunciar a véspera da celebração dos esponsais de Maiúrna. Seguindo a tradição do povo halib, os derradeiros preparativos se dividiam entre os membros das famílias. Amigos, e não eram poucos, acompanhavam de perto e, quando convidados, também auxiliavam nas tarefas. Maiúrna, o habilidoso cavaleiro halib, repousava na tenda principal, cercado pelos irmãos e futuros cunhados. A seu lado, banhava-se em vapores de incenso, a túnica púrpura que vestira seu pai, o avô e o bisavô. O luar já preenchia o oásis, e o corpo desnudo de Maiúrna estremecia na maciez solitária das almofadas.
Na infância, seus dias de hesitação e timidez se transformaram pelo incentivo decidido de Aparlek, o filho mais velho de seu tio Hajrad. Na entrada da vida adulta, Maiúrna e Aparlek se somaram na agudeza de percepção e no destemor imediato. A rotineira cumplicidade os tornava inseparáveis nas caravanas e no comércio com as tribos vizinhas.
A madrugada despertou e todo o povo halib, à exceção de Maiúrna. Este jazia, desnudo e rijo, abraçado à túnica de seus antepassados.
Até hoje, o povo halib pranteia a morte precoce e exalta os feitos de Maiúrna. O silêncio em relação a Aparlek é constrangedor e misterioso.