sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Alterar a consciência pela inalação de cânhamo e tussilagem marcou o percurso do Homem desde sempre. O olfato lhe resgatava a consciência cósmica. Filtros aromáticos impregnaram Circe na sedução de Ulisses, e ervas e resinas aromáticas acompanharam a Rainha de Sabá a cortejar Salomão. Ungüentos perfumados aproximaram Holofernes de Judite. O olfato é o único sentido que nos permite internalizar as qualidades dos fenômenos. Com ele sempre pudemos penetrar na interioridade única dos seres, inacessível à vista. O mundo hipocrático estudava ares, águas e miasmas pestilentos e letais. Dioscórides, Plínio e Galeno asseguravam o perigo dos odores pútridos e degenerescentes. O fedor se combatia com ervas aromáticas, incensos e fumigações. A Faculdade de Medicina de Paris, em 1348, associou a fedorenta Peste Negra com os vapores venenosos que infectavam a substância verdadeira do ar. Nas Américas, Bartolomeo de Las Casas descobria os usos religiosos, cerimoniais e terapêuticos do tabaco. Já no século XVII, a conexão entre odor e saúde começa a dominar obsessivamente o pensamento médico. O Ottocento iluminista dividia o mundo entre o fragrante, estímulo para a imaginação, e o fedido, sinal de perigo, decadência e repugnância. As cidades, porém, cresciam e se inundavam de lixo mau-cheiroso. Em breve, motores e vapores industriais invadiam o século XIX de Dieckens. As políticas de saúde intensificaram reformas sanitárias, o tabaco era demonizado e, desde a metade do século XX são perseguidos paroxisticamente os maus odores do corpo, do hálito e das casas com sabonetes e desinfetantes. A indústria cosmética e de higiene pessoal lucra imensamente com a venda de seus produtos. Bizet chocava o público com sua heroína vendedora de tabaco. Desorientados, ativistas aromafóbicos se defrontam com o entulho tóxico, os veículos a motor e o tabaco! O atual silogismo puritanista associa cheiros químicos com doenças degenerativas e proliferativas. O ambiente seguro, portanto, não deve ter cheiro. O século XXI inaugura uma nova patologia clínica, a sensibilidade química múltipla (SQM), após a grande massificação que “desodorizou” o mundo e roubou a identidade de todos nós! Triste mundo sem uma cultura de cheiros.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Via Veneto, Bahnhofstrasse, Champs Elysées: o luxo climatizado espreita em vitrines minimalistas ou retumbantes. A ebulição de consumo sem limites, sem intervalos, a aguçar-nos os desejos. Laptops futuristas, máquinas velozes, códigos de acesso. Novo século, novas tecnologias, antigas ambições: o angustiante desafio de sobreviver ao anonimato!
Junto à sarjeta do bulevar requintado, o gari José empunha a larga vassoura. Grisalho, mulato, mãos desenternecidas. O boné, desgastado como o dia-a-dia, mal lhe contém o suor. José sequer lê o próprio nome. Indiferente ao vai e vem hostil daquele formigueiro, diluído na ritmada seqüência de buzinas, José mantém essa rotina de limpeza há mais de 30 anos.
Na aparência descartável e subalterna, na lida desafiadora e anônima, José guarda um poderoso segredo de um antigo mistério. Povos, etnias e nações, há muito, se questionam e buscam-lhe a resposta. Dos augures romanos ao Sumo Sacerdote de Jerusalém, do Priorado do Sião aos Cavaleiros do Graal, do Mestre do Tabernáculo ao Grão-Mestre Martinista, em papiros ou incunábulos, a questão ecoa de maneira fértil.
Terminam os anos sessenta. O mundo estudantil se subleva nas ruas de Paris. Os Beatles vibram suas guitarras. O povo do Vietnã agoniza. A ditadura militar brasileira reprime ainda mais os meios de comunicação. O piauiense José, analfabeto, com dezenove anos, se desilude com a esterilidade do agreste, os rios secos e a caatinga espinhenta. José ouve “incelenças” nos funerais de tantos Severinos, mortos pela indigência costumeira. A vila é um silencioso armazém de almas! José conhece Maria, franzina nos seus dezessete anos. Os filhos, vivos e mortos, se sucederam na mesma velocidade e condição das limitações circundantes: rápidas, bruscas, truculentas.
José, o navegador ousado, o argonauta de um mar ensolarado e ressequido, que virou sertão, aprende a dirigir o leme de sua existência. Os cantochões lamuriosos, a ausência de perspectiva nos campos e a sensação de opressão íntima o tornam disponível para a partida.
Sem cartas de navegação, José e os seus singram por mares estranhos e revoltos. A rota, decidida pelas estrelas e mantida pela fé, o traz a São Paulo, cidade-polvo de espectro tentacular que o surpreende: há vida em cima e em baixo da terra, dos arranha-céus as plataformas subterrâneas do Metrô!
Assustado e excluído na periferia, José, o argonauta sem mar, se disfarça em vários personagens: auxiliar na construção civil, camelô, afixador de cartazes, entregador de malotes. Muitas máscaras, muitos olhares, uma só verdade!
O tempo escoa na ampulheta cósmica: planos econômicos, movimentos sindicais, transição democrática. Diretas já. O novo século se anuncia. As conquistas materiais são escassas, embora o sustentem e à família nos limites da dignidade.
José confabula sistematicamente: como se manter fiel ao destino! Como educar filhos, como falar com Maria, como não se perder no oceano de desejos. A reflexão é profunda, embora desprovida de muitas palavras. Mas o otimismo é onipotente. Filhos estudaram, se casaram, partiram confiantes. Maria, a esposa dedicada, se revela infiel: parte sem avisá-lo, nem preveni-lo, durante a madrugada. A dor do abandono, porém, não supera a responsabilidade do trabalho de varrição das ruas no escandaloso uniforme laranja. Não há tempo para lágrimas!
Do carro estacionado na alameda elegante, a música ecoa versos de Vinícius de Moraes, “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.
Na vitrine da loja, o manequim exibe um vestido de rainha. José limpa o suor da testa. Assusta-se: o manequim lhe sorri! É a sua Maria! É Maria engalanada a retornar para o reino dos céus!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Desenhei com os meus ouvidos a essência do que pensavas. Pintei com os meus olhos as cores róseas de teu corpo, tuas concavidades, tuas convexidades. Emoldurei-te nos meus sonhos. Eram apenas sonhos. E egoístas!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Sobrevivemos ao tempo. Sobrevivemos?
As tamareiras recendiam maduras ao sol, e crianças corriam pelo oásis a anunciar a véspera da celebração dos esponsais de Maiúrna. Seguindo a tradição do povo halib, os derradeiros preparativos se dividiam entre os membros das famílias. Amigos, e não eram poucos, acompanhavam de perto e, quando convidados, também auxiliavam nas tarefas. Maiúrna, o habilidoso cavaleiro halib, repousava na tenda principal, cercado pelos irmãos e futuros cunhados. A seu lado, banhava-se em vapores de incenso, a túnica púrpura que vestira seu pai, o avô e o bisavô. O luar já preenchia o oásis, e o corpo desnudo de Maiúrna estremecia na maciez solitária das almofadas.
Na infância, seus dias de hesitação e timidez se transformaram pelo incentivo decidido de Aparlek, o filho mais velho de seu tio Hajrad. Na entrada da vida adulta, Maiúrna e Aparlek se somaram na agudeza de percepção e no destemor imediato. A rotineira cumplicidade os tornava inseparáveis nas caravanas e no comércio com as tribos vizinhas.
A madrugada despertou e todo o povo halib, à exceção de Maiúrna. Este jazia, desnudo e rijo, abraçado à túnica de seus antepassados.
Até hoje, o povo halib pranteia a morte precoce e exalta os feitos de Maiúrna. O silêncio em relação a Aparlek é constrangedor e misterioso.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Apresentou-se simplesmente dizendo: "Olá, sou o João Nuno". E alguém lhe perguntou: "O filho de dona Maria do Céu?". Ele respondeu afirmativamente, e a conversa continuou.
Simples nomes, complexas representações, a se impor em nossa interioridade e a nos tornar registros da história comum. Os psicólogos sociais que o digam!
Mentalmente, adivinhei-lhe a idade: uns quarenta anos. João Nuno era filho da década dos nomes "dois em um". O nome de sua mãe indicava que ela nascera na década de trinta.
Antes de me afastar, ele explicava ao interlocutor já ser pai de uma Suzana Filipa. Sem dúvidas, uma adolescente ao redor dos treze anos!
quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Ainda no século XVII, o holandês Jacob van Campen realizou encomenda de pinturas murais na residência Het Hoogerhuis, em Randenbrock, próximo a Amersfoort, que incluía três painéis de cestas de frutas com espécies do Novo Mundo. O conjunto era encimado pela frase: El todo es nada.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Um sapateiro da Beira alinhavou Trovas para o Encoberto, e Avis esgarçou a esperança no longínquo Marrocos. O Jerónimos, porém, talvez seja pequeno para conter o Desejado.
terça-feira, 28 de dezembro de 2004
por Asyd
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terça-feira, 28 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Certas palavras nos tornam cúmplices, pois emocionam e instigam, além de nos acolher com suavidade. Destas palavras, descobri um conjunto impecável em trinta e duas estâncias em prosa. E, desde março, aprendi com elas a fragilidade humana após uma simples despedida, o coração a guardar amor e a surpresa do acordar abraçado, conjugando um verbo. Soube do apreço dos amigos, das alegrias das ternuras e do tempo de ócio a insuflar-lhe a alma de poeta. E, depois, fascinei-me com a descoberta da união das vontades, um sonho do amor por cumprir, os olhos verdes e a escrita na areia pela noite adentro, fora de si. Adiante, o poeta registrou seu refrigério, estrelas, lua, além dos mistérios gostosos de corpo e alma. Nas estâncias XXV e XXVI, o poeta se envolveu pela tristeza, embora tenha explicitado não lhe refletir obrigatoriamente a vida pessoal. Mas, quem se importa? Atentos, seus leitores o acompanharam no resgate da saudosa memória, da evocação do príncipe e da raposa, da foto enviada e do solitário a falar baixinho. Este é um lugar por onde não se passa impunemente, mas que se quer sempre chegar. Obrigado, Tiago, pela excelência de seu itinerário poético.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2004
por Asyd
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Se estou falando sério? Sim, claro. Olhe bem, pareço estar rindo? Ah, sério em outro sentido? Como assim? Se estou inventando isso agora ou se estou lhe contando como realmente aconteceu? Que diferença faz? Você nem tem certeza se falo sério ou não!
Mostrar-lhe este objeto, que pertenceu a ela, não é o suficiente? Como pode saber se isso é verdade?
É, já está tarde. Façamos o seguinte: durma. Você precisa acordar cedo para ir à escola, meu filho. Amanhã, quando você voltar, depois de jantarmos todos juntos, e você ter escovado seus dentes, lhe conto outra história!
segunda-feira, 27 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Maria de los Remedios foi esquecida junto ao portão de sua casa. Passeou entre os arbustos do jardim e sentiu-se um dos anjos. Durante alguns minutos, pouco menos de meia hora, preencheu-se de cores e de formas, aspirou o pólen das flores e flutuou como borboleta mediterrânea. Maria de los Remedios ampliou sua alma. Poucos anos se passaram e, com parcos recursos materiais, mas atentos olhares para o mundo, recriou a vida como depositária de verdade oculta aos que transitavam sob o sol. Maria de los Remedios não se tornou referência em Arte: apenas revestiu de emoções as cores de que se serviu.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Quis fazer-te surpresa e reuni flores e sorrisos.
Quis antecipar-te o prazer e escolhi palavras de carinho.
Quis garantir-me de tudo e circundei-te dia e noite.
Para o meu desespero, fugiste antes da aurora!
domingo, 26 de dezembro de 2004
por Nuedos
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En el jardin trasero hay una zona pavimentada que se utiliza como un fantástico museo de malas hierbas y donde la familia pasa muchas horas en silencio. No les gustan la vida. La simetria y el orden de los cipreses son los auténticos protagonistas de la austeridad. En la buhardilla, fría y aburrida, los sueños secretos se adornam con unas pocas fotos de familia.
domingo, 26 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Um a um, os sonhos se colaram pela matéria da memória, todos unidos num só bloco. Agora, fatiados, exibem cores e texturas dos segredos da vida a passar.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Em meio à sala, eis o pinheiro de Natal: previsível e solitário, como a vida de muitos humanos.
Ao ver um pinheiro, só me ocorrem os centros comerciais apinhados de consumistas.
Pinheiros naturais ou pinheiros artificiais? O que importa são os mimos, dizem os miúdos.
A identidade visual do pinheiro indica síntese de opostos: bosque frio e pirâmide ensolarada!
Em minha interioridade, o pinheiro cheira futuro a cumprir desejos.
A Inquisição de Lisboa e a de Coimbra ceifou Pinheiros.
Dicionários registram o vocábulo já no século XIII. É, pois, contemporâneo do gótico inglês, da Carmina Burana alemã, do álcool para uso medicinal, do surgimento das alianças de noivado, do Parzival d'après Eschenbach, de Afonso II, da canonização de António de Pádua e da utilização das penas de ganso no scriptorium monacal.
P.S.: Feliz Natal, pinheiro! E a todos os que me lêem!
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
por Nuedos
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O tempo desfaz arrogâncias,
pois é arrogante. (É o diabo!)
O tempo destrói impaciências,
pois é impaciente. (É o chicote!)
O tempo subverte o amor!
Amo-te agora mais do que nunca.
(O diabo me chicoteia!)
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Ao passar por tua porta, apreciei-te o jardim. No solitário arbusto, flores azuladas se voltavam em todas direções como a querer ouvir conselhos de todos. Lembrei-me dos sem confiança na própria opinião. Detive os passos, e meus olhos se abriram. De imediato, decidi abrir mão dos conselhos ouvidos e, antes que o Shabat se inicie, te incluirei em minha vida.
terça-feira, 21 de dezembro de 2004
por Nuedos
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Aprendo dos pântanos o brilho embaçado de águas estagnadas e não o quero. Espero pela Paixão, até os ecos palustres se afastarem de meus pés. Já tomei a cana da aveia como flauta e, qual viajante de Hamelin, conduzi-me à caverna da montanha que me pariu em sonora gargalhada.
Junto ao carvalho, o centauro ensinou-me o desapego. E eis-me a explorar outras paisagens.
Além do bosque, Júpiter troveja ao profetizar e oferece-me nozes.
No Ararat, Noé planta videiras em nome de Dioniso, e o Livro ensina-me ser a sabedoria uma videira de belas parras. Alimento-me de teu sangue à exaustão, ó Gaia, e mergulho na embriaguez mística de tuas coxas.
Evoé!