O mistério do argonauta sem mar

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
por Nuedos

Via Veneto, Bahnhofstrasse, Champs Elysées: o luxo climatizado espreita em vitrines minimalistas ou retumbantes. A ebulição de consumo sem limites, sem intervalos, a aguçar-nos os desejos. Laptops futuristas, máquinas velozes, códigos de acesso. Novo século, novas tecnologias, antigas ambições: o angustiante desafio de sobreviver ao anonimato!
Junto à sarjeta do bulevar requintado, o gari José empunha a larga vassoura. Grisalho, mulato, mãos desenternecidas. O boné, desgastado como o dia-a-dia, mal lhe contém o suor. José sequer lê o próprio nome. Indiferente ao vai e vem hostil daquele formigueiro, diluído na ritmada seqüência de buzinas, José mantém essa rotina de limpeza há mais de 30 anos.
Na aparência descartável e subalterna, na lida desafiadora e anônima, José guarda um poderoso segredo de um antigo mistério. Povos, etnias e nações, há muito, se questionam e buscam-lhe a resposta. Dos augures romanos ao Sumo Sacerdote de Jerusalém, do Priorado do Sião aos Cavaleiros do Graal, do Mestre do Tabernáculo ao Grão-Mestre Martinista, em papiros ou incunábulos, a questão ecoa de maneira fértil.
Terminam os anos sessenta. O mundo estudantil se subleva nas ruas de Paris. Os Beatles vibram suas guitarras. O povo do Vietnã agoniza. A ditadura militar brasileira reprime ainda mais os meios de comunicação. O piauiense José, analfabeto, com dezenove anos, se desilude com a esterilidade do agreste, os rios secos e a caatinga espinhenta. José ouve “incelenças” nos funerais de tantos Severinos, mortos pela indigência costumeira. A vila é um silencioso armazém de almas! José conhece Maria, franzina nos seus dezessete anos. Os filhos, vivos e mortos, se sucederam na mesma velocidade e condição das limitações circundantes: rápidas, bruscas, truculentas.
José, o navegador ousado, o argonauta de um mar ensolarado e ressequido, que virou sertão, aprende a dirigir o leme de sua existência. Os cantochões lamuriosos, a ausência de perspectiva nos campos e a sensação de opressão íntima o tornam disponível para a partida.
Sem cartas de navegação, José e os seus singram por mares estranhos e revoltos. A rota, decidida pelas estrelas e mantida pela fé, o traz a São Paulo, cidade-polvo de espectro tentacular que o surpreende: há vida em cima e em baixo da terra, dos arranha-céus as plataformas subterrâneas do Metrô!
Assustado e excluído na periferia, José, o argonauta sem mar, se disfarça em vários personagens: auxiliar na construção civil, camelô, afixador de cartazes, entregador de malotes. Muitas máscaras, muitos olhares, uma só verdade!
O tempo escoa na ampulheta cósmica: planos econômicos, movimentos sindicais, transição democrática. Diretas já. O novo século se anuncia. As conquistas materiais são escassas, embora o sustentem e à família nos limites da dignidade.
José confabula sistematicamente: como se manter fiel ao destino! Como educar filhos, como falar com Maria, como não se perder no oceano de desejos. A reflexão é profunda, embora desprovida de muitas palavras. Mas o otimismo é onipotente. Filhos estudaram, se casaram, partiram confiantes. Maria, a esposa dedicada, se revela infiel: parte sem avisá-lo, nem preveni-lo, durante a madrugada. A dor do abandono, porém, não supera a responsabilidade do trabalho de varrição das ruas no escandaloso uniforme laranja. Não há tempo para lágrimas!
Do carro estacionado na alameda elegante, a música ecoa versos de Vinícius de Moraes, “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.
Na vitrine da loja, o manequim exibe um vestido de rainha. José limpa o suor da testa. Assusta-se: o manequim lhe sorri! É a sua Maria! É Maria engalanada a retornar para o reino dos céus!