Ao alvorecer

domingo, 09 de janeiro de 2005
por Nuedos

Os pais se entristeceram profundamente com a morte do primogênito e, por isso, a lápide do túmulo permanece em branco até hoje. Ao nascer o segundo filho, coube-lhe o nome do irmão morto.
Na acinzentada infância, acreditava serem os pais cegos, embora não o fossem. Na solitária adolescência, praticava pequenos furtos e não bocejava para evitar que a alma se lhe escapasse.
Longílineo, barbudo e truculento envolveu-se, pela milésima vez, em briga de rua numa tarde de céu escuro e trovejante. Como faiscantes meteoritos à deriva, os jovens bárbaros e destemidos se bateram à exaustão. Os insistentes gritos dos comerciantes horrorizados dispersaram a malta. Exausto, dolorido e ensangüentado, acabou por se esconder em uma viela escura e deparou-se com Bruno, um dos ex-contendores, também barbudo, também truculento e também exausto.
Antes da aurora despertar, se beijaram ofegantes e decidiram viver juntos e compor harmoniosa melodia de dois acordes, entremeados de pausas.
Até hoje, Bruno ajuda o longilíneo Adamastor a transformar sua vida num Cabo da Boa Esperança!