Apontamentos circulares - 1

terça-feira, 04 de janeiro de 2005
por Nuedos

Nunca devemos procurar o sofrimento, diz Adília Lopes. Mas como fazer se o sofrimento sempre nos espreita, e a vida tão depressa fica feia, fica bonita? Isto vale para todos, e não apenas para os que se dedicam a repetir I'm a little lamb who's lost in the woods como estilo de vida. Ou para o fanhoso Caruso em Una Furtiva Lagrima. O sofrimento se assemelha às irrecusáveis colheradas de remédios goela-abaixo de nossa infância. É bom para melhorar, diziam as mães. Quando se era apenas um dos miúdos da família, não nos interessava saber se a tia-avó se alinhava ao mito sprit japon, como cultura de imagem, na decoração da sala. Crianças não perdem tempo a discutir estética. Queríamos ser abraçados. Abraços refutavam qualquer dor, embora eu preferisse olhar as estampas dos santos da sala, exemplos para a nova moralidade da tia-avó. Os que se apresentavam com os braços abertos eram os meus preferidos. A tia-avó não tinha preferência por nenhum deles. Nem mesmo para os que eram acometidos por olhares tristonhos de passarinhos mortos. Ah, aqueles olhares trêmulos fantasticamente familiares às vésperas das provas do Liceu! Blasfêmia, diriam alguns? Blasfêmia era colecioná-los, à exaustão, diante dos olhares não tão inocentes dos miúdos, como provavam nossos sapatos de colegiais. Mas isto é uma outra história para um outro Apontamento circular. A tia-avó se convertera ao cristianismo, baseada na lógica da exclusão/inclusão, e temia, creio eu, decepcionar-se novamente com a vida. As imagens eram o seu referencial identificatório e, por isso, ficava a contar os sofrimentos de cada santo, qual escada de caracol, mesmo quando queríamos apenas comer doces às colheradas (sim, representávamos os pioneiros do atrevimento tranqüilo da sociedade de consumo cheia de siglas e endereços eletrônicos!). Conheci pessoas que se acreditavam felizes, mesmo sem o imediatismo da conversão de fé, embora tenham adotado atitudes de se-o-destino-entregar-lhe-um-limão-faça-uma-limonada, o que sem dúvidas pode ser especialmente divertido nos verões desérticos. E desde que não sofram dos dentes. E, com isto, voltamos ao tema do sofrimento. Concordo com a Adília!