À moda

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

O café estava frio:
essa foi a desculpa pela tristeza.

Um café escuro
como a longa madrugada a espreitar a aurora.

Um café amargo
qual infinita presença da noite em desencanto.

Um café frio
como a persistente incerteza em celebrar a vida.

A pedido de Gaetano Napuletano

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

(para Luis Antônio Casal Del Rey Ramalho de Oliveira)

Di molto tempio giá che io andavo quireno pensá e, intó di repentimo, io piguê di arrefleti i dissi p'ra mim: Gaetano che cosa é la felicitá? Eh! san Genaro da mia terra! E intó io mi piguei da fazê a risada, pur causa che io me alembré do Luigi. E pur istus amutive che oggi, ind'agurinha mesimu, io mi vó impubricá a mio pinió sopra la felicitá. Ma, os mignos lustrissimo e zimpathico inleitores, che non só tuttos inguinoranti, tambê giá devi sabê tutto di questa robba de felicitá! Per me, segundo a migna balisada pinió, la felicitá é como uno bambino. O Luigi, per inzempio, era uno guagliozinho pichignigno. Oh! mamma mia! S'imagine o signore uno guagliô maise bunitigno che o Jesubambino? O Luigi era o maise bunito guagliô do l'Universimo, desdi a casió che u Pietro Caporale indiscobriu u Brasile. Ebbé! dó a mia parola di onoré! Giuro pur Deuse! O Luigi era a própia felicitá! E illo non churava, non signores. E non tenía ni paúra das insombraçó! Má che fglio da máia! Os intaliano só tuttos valentes pióre do lió! E comme illo giá tenia dois anno de indadi e non tenia visto o mare, risorvi da fazé una viaggio inda a Santose. Intó piguemos un tomobile i fumos. Uh! ma gome é bello u mare! madonna mia! E o Luigi giá si dexó afazê bringadera de ajugá begigno p'ras moça chi passava. Anche le donne si ria chi né troxa. Ih! illo stava cuntento, quello s'invirgogna! Tuttos mondo batero parma e io tambê. Aóra mismo, pur causa du cuntentamente io mi piglio maise quattros quilo di gordura! Anche no grupo scolaro, o Luigi era uno gamarada maise tilligenti do Niversimo: sabia giograffia, intaliano, chimica, portogheze. S'imagine che illo apassava inda a livraria, pigava un livrio di maise di treis quilo, ispiava as figura i giá ficava sabéno o livro intirigno! Ah! che figlio da máia di talentimo e sabiduria. E oggi, o Luigi é un uomo ricco p'ra burro con sua moglie Ana i sua figlia Erica. Uh! mamma mia! che gomoçó! O migno goracó pigô di batê come se tenia una vacca braba curréno atraiz di mim! E assi stá poise spricada a mia pinió sopra la felicitá!

Tenho as armas

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
por Asyd | 1 andarilho(s)

Fetiche
com fetiche se paga.

Lembranças #4

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
por Asyd | 0 andarilho(s)

Lembranças #4

O mundo é um moinho

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

(Cartola - 1976)

Ainda é cedo, amor
mal começaste a conhecer a vida
já anuncias a hora da partida
sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida
e em pouco tempo não serás mais quem tu és.

Ouça-me bem, amor
preste atenção, o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
vai reduzir as ilusões a pó...

Preste atenção, querida
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás à beira do abismo
abismo que cavaste com teus pés.

Fica um pouco mais e tenta amar as perguntas de teu coração, com a certeza de que aqui estou.

Constatação

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Em Holanda, nem Rembrandt conseguiu reproduzir-te o rosa!

Boa prosa

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Confiram aqui.

Sem estética

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

"Não me peguem no braço", clamava Álvaro de Campos. E eu o repito!

Portugal revisited

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Comprei de tudo: pifarito, pianinho, tamborzinho, campainha, rabequinha, rabecão. Faltou apenas alegria!

Iluminura - IV

terça-feira, 18 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

O alecrim desconhece o silêncio. Após as chuvas, continua a gritar.

Iluminura - III

terça-feira, 18 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Eu me fujo das aparências sensatas. Aranhas desconhecem o ângulo reto.

Retrato

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Enamorou-se do gelo e buscou-lhe a intimidade com as mãos, como afirmam os romances baratos. Adivinhou-lhe, talvez, a efêmera dignidade. Um caso de amor sem etilismos, apesar de on the rocks. Também sem palavras cálidas, imagino. Luca vive um amor de contenções e frágil em suas esperanças. Ama o presente do amor e se desatrela do futuro. Anonimamente, invejo o Luca Roncoroni em sua jornada de fria (?) paixão pelo gelo.

-.-. --- -. - .- -... .. .-.. .. -.. .- -.. .

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

-. .- / ...- .. -.. .- --..-- / -.. . ... .--. . -.. .. -.. .- ... / -.-. --- -. - .- -- .-.-.- / .. -. ..-. . .-.. .. --.. -- . -. - . .-.-.-

Minhas vidas secretas - II

domingo, 16 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Executivas na coleira: warm up para decisões urgentes. Sinergia no team, baby!

Minhas vidas secretas - I

domingo, 16 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Webcam: precioso binóculos para ardentes paisagens da madrugada!

Contito pretensioso à moda

domingo, 16 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Era uma vez, como sempre, uma princesa de aparência comum que dizia: agrada-me dissimular no amor, ao falar em falsete com suas sandálias de tiras douradas. e como desejasse receber afagos deitava-se semi-nua junto ao viveiro de pombas, não as da Catirina, mas outras. e lá permanecia posta em sossego, sem sem importar com os arrulhos quando surgiu um pequeno príncipe (previsível, embora indispensável) de pequenos olhos meigos e visão curta mas grande onde verdadeiramente importava a buscar a Beleza Verdadeira, o que lhe rendia boa dose de escárnio entre os da aldeia. a singular rapariga cleptomaníaca da virgindade dos garotões arrastou-o para a cama com um só golpe enquanto balançava as tetas. e embora o amor com amor se pague, logo depois o príncipe partiu sem se importar com o saldo do encontro mas com boa dose de sabedoria para escrever obras eróticas menores o que lhe rendia popularidade singela. a princesa continua com as mãos na cabeça e cedo sai da toca a buscar alimento.

Apelo para a Humanidade

domingo, 16 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

É muito importante ler isto aqui. Obrigado!

Velho

sábado, 15 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

passos de doçura breve
a rascunhar
mansa sinfonia luminosa

a surdez te silencia
e ao mundo

só memórias
a espreitar nas rugas
um silêncio distraído de sono interior

tua fragilidade cinzenta
onipotente como odor do tempo
espelha-se bela qual folha retorcida.

Alcanzia - I

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Ao olhar minha sombra em repouso, apressei-me em observá-la. Era uma caixa tão antiga, que se desfazia como papel, a tristonha, e abraçava palavras distantes e solitárias. Mirei-as sem constrangê-las. As palavras pediam calma e luz, como os homens do meu tempo. Meus dedos ásperos e quebradiços obedeceram, e elas se soltaram desconfortáveis e, na palidez, sorriram. Depois ensaiaram vôo de borboleta (eu as queria imortais) e se aninharam por aí em busca de um sentido real.

Lembranças #3

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005
por Asyd | 0 andarilho(s)

Lembranças #3

Iluminura - II

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

As pedras parecem mortas. Tolice!
Elas se fazem de ausentes, para não desvendarem mistérios.

Iluminura - I

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Não vi Reis Magos, nem Dom Quixote, nem nada.
As esperanças morreram antes de minha chegada.

Matéria outonal

terça-feira, 11 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

(ao poeta Ricardo Lima)

palavras
como estilhaços de luz
adormecem na escuta

cabelos
como sonhos de ontem
renunciam ao toque

luares
me aproximam de volta
mas dóem.

Penetralia mentis

terça-feira, 11 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

A retina só embalsamou teus gestos elegantes, porém inúteis. À distância e previsivelmente, a multidão a gritar cheia de boas intenções de que desconfio. Uma herança de terras distantes, um Evangelho de saudades!

Ocaso

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Saíamos às tardes para ver o Sol na linha do horizonte... e ela a esboçar o que ainda restava fazer...

Dulce era sinônimo de ordem: tudo sempre à mão, dos alfinetes de fralda aos recibos dos dentistas. Eu... bem... quero dizer, deixava a desejar (segundo ela, sempre fui, etimologicamente, um desastre: desarticulado com a harmoniosa ordem cósmica!).

Depois de quarenta anos de casados, ela ainda me surpreendia com sua capacidade de planejamento.

Saíamos às tardes para ver o Sol na linha do horizonte, em qualquer estação do ano. No verão, me dava limonada fresca antes de retornarmos à casa. No inverno, um cachecol para me aquecer a garganta.

Dulce Mieli era seu nome de solteira. Só me lembro de tê-la pedido em casamento e, depois do aceite, nossa vida em comum. Ela organizou tudo: da recepção à viagem de núpcias.

Os filhos jamais comprometeram nossa vida de casal. Somaram. Um após o outro, até completar quatro. E ela no labiríntico e delicado comando de tudo. Mesmo quando estava desempregado, as celebrações aconteciam sem interrupções, nem economias. Tias, sogra e sobrinhos a agradecer os presentes e mimos, que eu jamais suspeitava tê-los comprado ou, até mesmo, enviado!

Saíamos às tardes para ver o Sol, e Dulce me fazia acreditar ser minha a decisão!

Depois, os filhos cresceram e partiram, e nossa vida se tornou ainda mais doce! Primeiro, os piqueniques pelas estradas durante a primavera. Depois, as leituras dos clássicos em alta voz para aquecer as noites de inverno. Ela lia, e eu ouvia em total fascínio.

Compotas alinhadas, filhos criados, jardineiras floridas, mortos enterrados: sensação de plenitude e segurança.

Saíamos às tardes...

Hoje eu penso: Mieli tem a ver com mel. E mel, com abelha. É claro! Dulce, a obreira a coletar néctar hexagonalmente organizado: eu, os quatro filhos e ela! Daí também o ritual diário do Sol nos últimos quarenta anos!

Saíamos...

Sozinho, não sei o que ainda resta a fazer!


(Publicado na Bestiário - Revista de Contos, em novembro de 2004)

D'après la tradition

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

On a perdu nos chaussures,
mais pas le bonheur de danser.
On a oublié l'adresse,
mais pas la clé de nos mémoires.
Sus donc!

Sobressalto

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

O cult Ryuichi Sakamoto afirma Love - love will survive us / Hate - hate will divide us / But something inside us / Unites us with love (in Sweet Revenge).
Alguém poderia me explicar com que raios se alinha a poética dos novos tempos?

Poética - II

domingo, 09 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Ao abrir a caixa de tesouros garimpados no aconchego, o menino fazia a crônica do possível.

Poética - I

domingo, 09 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Coleciono palavras como sementes à espera da Primavera!

Ao alvorecer

domingo, 09 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Os pais se entristeceram profundamente com a morte do primogênito e, por isso, a lápide do túmulo permanece em branco até hoje. Ao nascer o segundo filho, coube-lhe o nome do irmão morto.
Na acinzentada infância, acreditava serem os pais cegos, embora não o fossem. Na solitária adolescência, praticava pequenos furtos e não bocejava para evitar que a alma se lhe escapasse.
Longílineo, barbudo e truculento envolveu-se, pela milésima vez, em briga de rua numa tarde de céu escuro e trovejante. Como faiscantes meteoritos à deriva, os jovens bárbaros e destemidos se bateram à exaustão. Os insistentes gritos dos comerciantes horrorizados dispersaram a malta. Exausto, dolorido e ensangüentado, acabou por se esconder em uma viela escura e deparou-se com Bruno, um dos ex-contendores, também barbudo, também truculento e também exausto.
Antes da aurora despertar, se beijaram ofegantes e decidiram viver juntos e compor harmoniosa melodia de dois acordes, entremeados de pausas.
Até hoje, Bruno ajuda o longilíneo Adamastor a transformar sua vida num Cabo da Boa Esperança!

Caderno de viagem

sábado, 08 de janeiro de 2005
por Asyd | 0 andarilho(s)

No centro do estado do pao de queijo, do feijao tropeiro, do tutu, do queijo com doce de leite, as cidades abrigam igrejas de tres periodos diferentes do seculo XVIII. No periodo da descoberta do ouro, reconhece-se os tetos de madeira com estrutura de caixotes. No auge do ouro, os tetos lembram o casco de um navio. No periodo da decadencia — nao pelo ouro ter se acabado, mas por faltar tecnologia para continua-lo extraindo — os tetos de madeira das igrejas sao arredondados.

Memórias dispersas

sábado, 08 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Meu pai era escritor. E laureado. Era o que todos afirmavam. Alguns poucos diziam ser ele próprio uma história. Penso que ele colecionava temperos e sabores com estranha diuturnidade para alimentar saberes à larga.

Minha mãe era apenas mãe. E previsível como tal. Era o que todos pensavam. Alguns poucos diziam ser ela um calendário de aniversários e encontros de família. Penso que ela construía pontes com olhar de urbanista. E indicava-nos travessias e caminhos certos.

Meu irmão é um fazedor de velas. É o que todos sabem. Alguns poucos dizem ser ele um artesão de sonhos. Penso que ele incendeia almas, para que verões aflorem sempre.

Eu gosto de marzipã, aprecio construções românicas e coleciono conchas. Alguns poucos assim o confirmam. Na verdade, acho que sou um tipo esquisito e solitário em busca de saberes, de caminhos e de ecos de verões distantes.

Il fault changer la vie

sexta-feira, 07 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Desde jovem, prezei mudanças: transformei projetos, transmutei sentimentos, redefini ideais. Quanto à vida, bem, a vida entorpeceu-se por tantos desejos.

Palavras, palavras, intenções

sexta-feira, 07 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

(exercícios de Cultivo da Fala)


"Não pense em me abandonar. Sou o homem de sua vida, embora tenha falhado em provar. Vou tentar dar o melhor de mim neste ano, pois não consigo viver sem você. Tenho que conseguir! Eu sei, nossa convivência tem sido difícil, mas vou conseguir superar. E se eu conseguir, serei um homem feliz! Espero ter aprendido a lição. Gostaria de envelhecer junto de você!"


"Fique comigo. Sou o homem de sua vida e vou lhe provar. Darei o melhor de mim neste ano, pois não quero viver sem você. E vou conseguir! Eu sei, nossa convivência foi difícil, mas vamos superar. E quando eu conseguir, serei um homem feliz. Aprendi a lição. Quero envelhecer junto de você!"

Relógio

quinta-feira, 06 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Coração de lata
a me dar ordens
em sussurros tediosos.
Flagelas-me
com açoites agudos
e me lanças
perpetuamente
num insondável escapar.

Vaccaj

quarta-feira, 05 de janeiro de 2005
por Asyd | 0 andarilho(s)

Se o pobre rio murmura lento e baixo,
um pequeno ramo,
um seixo,
quase o fazem parar.

Minha voz clama
quando há tempestades em meu interior.

Just a moment

quarta-feira, 05 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

I'm leaving the room
for a while.
I'm leaving the room
for my pleasure.
I'm leaving the room
para aquietar
meu silêncio feroz.

Lição de Cultivo da Fala

quarta-feira, 05 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

(para o discípulo E.B.N.)

Busque repetir, conscientemente, palavra por palavra da mensagem do outro. Aí, estará, de fato, a ouvir o outro.
Observe, então, a delicada sucessão dos fonemas. Surgirá, assim, a forma e maneira como o outro se mostra ao mundo.
Atente para as idéias expressas. Captará os conceitos reais ocultos por trás das palavras.
E agora, finalmente, o EU do outro se desvelará inteiramente para você!

No silêncio, anjos dizem ainda mais!

P.S.: Aproveite para, à luz desta Instrução, examinar os comentários aos artigos deste blog-lab. As demais Instruções as enviarei por e-mail.

Lembranças #2

terça-feira, 04 de janeiro de 2005
por Asyd | 0 andarilho(s)

Lembranças #2

Apontamentos circulares - 1

terça-feira, 04 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Nunca devemos procurar o sofrimento, diz Adília Lopes. Mas como fazer se o sofrimento sempre nos espreita, e a vida tão depressa fica feia, fica bonita? Isto vale para todos, e não apenas para os que se dedicam a repetir I'm a little lamb who's lost in the woods como estilo de vida. Ou para o fanhoso Caruso em Una Furtiva Lagrima. O sofrimento se assemelha às irrecusáveis colheradas de remédios goela-abaixo de nossa infância. É bom para melhorar, diziam as mães. Quando se era apenas um dos miúdos da família, não nos interessava saber se a tia-avó se alinhava ao mito sprit japon, como cultura de imagem, na decoração da sala. Crianças não perdem tempo a discutir estética. Queríamos ser abraçados. Abraços refutavam qualquer dor, embora eu preferisse olhar as estampas dos santos da sala, exemplos para a nova moralidade da tia-avó. Os que se apresentavam com os braços abertos eram os meus preferidos. A tia-avó não tinha preferência por nenhum deles. Nem mesmo para os que eram acometidos por olhares tristonhos de passarinhos mortos. Ah, aqueles olhares trêmulos fantasticamente familiares às vésperas das provas do Liceu! Blasfêmia, diriam alguns? Blasfêmia era colecioná-los, à exaustão, diante dos olhares não tão inocentes dos miúdos, como provavam nossos sapatos de colegiais. Mas isto é uma outra história para um outro Apontamento circular. A tia-avó se convertera ao cristianismo, baseada na lógica da exclusão/inclusão, e temia, creio eu, decepcionar-se novamente com a vida. As imagens eram o seu referencial identificatório e, por isso, ficava a contar os sofrimentos de cada santo, qual escada de caracol, mesmo quando queríamos apenas comer doces às colheradas (sim, representávamos os pioneiros do atrevimento tranqüilo da sociedade de consumo cheia de siglas e endereços eletrônicos!). Conheci pessoas que se acreditavam felizes, mesmo sem o imediatismo da conversão de fé, embora tenham adotado atitudes de se-o-destino-entregar-lhe-um-limão-faça-uma-limonada, o que sem dúvidas pode ser especialmente divertido nos verões desérticos. E desde que não sofram dos dentes. E, com isto, voltamos ao tema do sofrimento. Concordo com a Adília!

Hoje é um novo dia, de um novo ano

segunda-feira, 03 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Segundas-feiras são montanhas altas e de relapsa aparência.
Quando virgens, mostram-se tolas e afetadas.
Quando parem ratos aos gritos, lembram-me Fedro ou Esopo!

Fadista: glossário pessoal

segunda-feira, 03 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)


Cantoras de fado têm armários cheios de acordes delicados como borboletas noturnas, além de sustenidos algodoados para envolver os sussurros de nossas almas.


A palavra fado se origina do latim fatum, de fari, falar por oráculos, vaticinar, profetizar, predizer, o que as torna sábias sacerdotisas a nos apontar as falhas trágicas do destino humano.


Fadistas me lembram sereias. Ambas cantam os incomensuráveis mistérios da vida e da morte. Apenas as fadistas nos salvam da solidão oceânica.


Cantoras de fado não usam relógios, pelo simples fato de que tragédias não têm hora para acontecer. Ai de mim!


Cantoras de fado usam mantas sobre os ombros para esconder-lhes as asas.


Usamos a palavra fado, em nossa língua, como sinônimo de destino desde o século XVI e, enquanto sinônimo de canção popular lisboeta, desde o século XIX. Foram necessários três séculos para a guitarra afinar-se com o incognoscível mistério dos corações humanos.

Poética #2

segunda-feira, 03 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

(ao Giancarlo)

Seus pés
pisavam
nas nuvens
e eu permaneci
em silêncio
torcendo
por seu
retorno.

Proibido trocar de corpo

domingo, 02 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)

Um amigo contou esta história enquanto conversava com outros amigos perto do lume, à noite. Ele jurou que era tudo verdade. E, se vocês não têm outras coisas para fazer, eu vou lhes contar essa história. Há muito, muito tempo, quando havia menos barulho e mais plantas, em Burgos, o franzino Pepe Lomas gostava de brincar de ser forte mais do que de costume, algo como John Hall em Paloma of the seas, da época do seu avô. E, o franzino Pepe Lomas, em suas fantasias desarrozoadas, clamava por realidade sem truques, nem atalhos. Um dia sonhou com a exuberante Doroty Lamour e, entre atormentado e cinzento, descobriu-se apesar de poliglota incapaz de pedi-la em namoro! Desde então, o franzino Pepe Lomas rompeu com savanas africanas, falésias e mares bravios a induzir-lhe náuseas. É sempre assim na infância: descobre-se o Destino implacável a reduzir inquietações e a nos dirigir, décadas depois, para as acolhedoras carícias do divã de um analista, ufa! E se ele não viveu feliz para sempre, nada podemos fazer. Nem você, nem eu. E essa é uma história de verdade. E se não for, deveria ser.

Escritor: glossário pessoal

sábado, 01 de janeiro de 2005
por Nuedos | 0 andarilho(s)


Adjetivo ou qualidade de quem lê a vida no imperativo exigido pela alma.


Há duas espécies de escritores: o falso e o verdadeiro.

O falso escritor perambula entre a consciência de suas falhas e limitações, ocultas por máscaras de orgulho, e o descontentamento por sua alma pequena e anêmica de entusiasmo, compensada na produção excessiva e rotineira.

Sem traços de orgulho ou de alma pequena, o verdadeiro escritor, humilde, cria ao revelar a vida.


Falsos escritores afirmam "literatura é tudo o que tenho", mais ou menos como "sexo é tudo o que tenho" (cfr. Larry Clark, Kids).

Escritores verdadeiros afirmam: "Organizar as coisas da vida é o que gosto de fazer, sem desprezar outros prazeres!"


Embora o aquecimento global ainda seja motivo para celeumas, o hálito de um escritor é muito grande, muito cheio de ar fresco.


Um escritor soletra a vida com reverência, humor, fascínio e inquietação, não necessariamente nessa ordem. Ele costuma cantarolar à la Bob Dylan "How many roads must a man walk down, before you call him a writer?"


Podemos encontrar escritores em qualquer letra do alfabeto, começando por A: Adélia Prado, Adoniran Barbosa, etc.