Sentinela
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
por Nuedos
No areal, restou o sentinela. Afinal, fronteiras impõem limites e pedem vigias. E, para isto, ele servia. De seu posto, restava olhar para o distante horizonte. E a vigia modorrenta nada lhe acrescia, senão miudezas e relevos distantes. De um lado, limites se erguiam em cordilheiras semelhantes a mãos postas em prece, como a indicar caminhos para os de seu tempo. De outro, o vulcão sobranceiro, eternamente ferido, a purgar venenos das lesões. E o sentinela postado ali na vastidão do nada. Não que fosse nada por inteiro. Havia um pouco mais. Pequenos montes entremeados de vales previsíveis, um poço seco a exsudar glórias passadas e corcovas radiais a evocar a insipidez da geografia incômoda e desalentada. E isto, afinal, era tudo. Desde que ocupara o posto, nenhuma alteração, exceto uma anêmica vegetação rasteira a se espalhar aqui e ali. A natureza dormitava nos campos, mas não no sentinela. Com o tempo, ele encorpara o talhe. Sem disfarces, o surrado uniforme de anos já lhe tolhia os movimentos. Por isto, decidiu desnudar-se. Afinal, a tarefa impunha-se sobre o decoro. E, além do mais, só ele restara no areal. Exibiu-se ao sol como anjo na vastidão. Agora, a pele desbotada respirava a pleno. Despertou-se-lhe a liberdade e, a um só tempo. a plenitude dos sentidos. Verticalizado e nu, escutou os sons a povoar o tempo e compreendeu as pedras que lhe sustentavam os pés e a vegetação hirsuta a lhe indicar a direção dos ventos. E escutou o próprio coração a exalar desejos.
Dizem que, noite e dia, outros anjos acompanham o sentinela e lhe confiam segredos sobre os dias que virão.
