Apelo da terra
sábado, 19 de março de 2005
por Nuedos
"Asfalto fora e aí vamos nós, clap clap clap, passos confiantes de gente urbanizada (que se imagina urbana), de pele (indiferente, tratada) onde roçam a lycra e o poliester. Que espreita pelos vidros sem qualquer dedada e vê a realidade através do ajax. Nesse preciso instante, bactérias legionárias fazem festins nos open spaces, por entre monitores e divisórias de fórmica.
Gente que salta de caixa em caixa, grandes, pequenas, com rodas, janelas (ou sem elas), varandas com vasos onde se espevitam verdes raquíticos, condutas do lixo e telhados, muitos telhados que tapam o céu, cuidado com o sol que está doentio! (baixamos persianas, pálpebras).
Gente embrulhada no conforto quentinho dos circuitos eléctricos, numa existência limpa, asséptica e quase translúcida, aos ziguezagues por entre matéria inorgânica, produzida em série (sem cheiro definido) e que lhes ofusca a memória animal.
Na cidade, esquecemos que um dia já fomos amebas nervosas, girinos em fuga de um mar sulfuroso, patas no chão, pelos no corpo e rasgão na carne, enquanto o sangue nos cavalga o corpo (e relincha, enfreado) e se dilui em garrafas de água mineral, natural e sem gás (a pureza da fonte, onde quer que isso seja), o vidro no vidrão.
Quando a TERRA se impõe e nos reclama por fim, tememos insectos e enfados, pólens mortíferos, choques alérgicos de desfecho anafilático (é tudo apenas questão de minutos).
Mas sem darmos por isso pomo-nos a jeito para o açoite do vento e afagamos cães sujos que pingam carraças.
E começamos a descalçar a cidade, como uma luva apertada: delicada mas firmemente. Mergulhamos sem pensar a mão na terra escura, partículas lamacentas entranham-se-nos na unhas e uma PAZ muito antiga (mais antiga que os tempos) apodera-se de nós.
É então que percebemos que, a cada vez que comemos, fodemos, matamos ou lambemos as crias, estamos a enterrar por uma vez mais as mãos na TERRA. Que teimamos em renegar mas que, a cada torrão que apertamos, se desfaz, libertando qualquer coisa de primordial, visceral e BELO, que nos sussurra que foi ali que TUDO começou."
(transcrito, com autorização, do blog Controversa maresia)

Enquanto lia o texto ouvia algumas 'misturas' de "Team Kitty-yo", mais precisamente 'Sex in Dallas and Biladoll', 'Raz Ohara' e 'Kante' e gostei muito da combinação das palavras com as músicas (WWW.KITTY-YO.COM)
Escrito por rita | 19/03/2005 23:20
Boa sugestão esta tua, Rita! Agradeço também a visita!
Escrito por Nuedos | 19/03/2005 23:38