Houve um tempo… muito, muito lá atrás, em que todo ofício era uma arte ou uma herança. O filho aprendia com seu pai, o que este aprendera com seu avô. O trabalho herdado acabava por dar um nome, ou melhor, um sobrenome para a família. Surgiam os Abulafia (ár., médico), os Ferreira (de ferraria, “minas de ferro”), os Cunha (de culina, “cozinha”), os Barroso (oleiros), os Medeiros (lat. meta, que lidavam com medas de trigo), os Morais (lat. mora, que cultivavam amoreiras), os Pimentel ou Pimienta (que plantavam pimentas), os Parra ou De La Parra (vinicultor), os Serero (vendedor de cera), os Funaro (it., cordoeiro), os Kassab (ár., açougueiro), os Mieli (vendedor de mel), os Kaufmann (al., vendedor), os Müller ou Miller (al., que trabalha no moinho), os Goldschmidt (al., ourives), os Schneider (al., alfaiate), os Haddad (ár., ferreiro), os Kaplan, Papp ou Cohen (sacerdote), etc.
Houve um tempo… muito, muito lá atrás, que a região ou cidade em que se habitava conferia uma referência espacial para o grupamento familiar, adotado como sobrenome. Surgiam os Alcântara (ár., a ponte), os Bastos (lat. vastus, deserto), os Caldas (topônimo com fontes termais), os Cardoso (onde havia muitos cardos, espinheiros), os Braga, Bragança e os Cintra (cidades portuguesas), os Figueiredo (onde há figueiras), os Fonseca (de fonte seca), os Fontoura (lat. fons aurea, “fonte dourada”), os Mesquita (ár. masjid, “mesquita muçulmana”), os Neiva (lat. naebis, nome de um rio), os Pádua (lat. Patavium, cidade italiana), os Paiva (antigo rio português), os Proença (lat. Provincia, forma antiga de Provence), os Queirós (extensa plantação de queiró, espécie vegetal), os Sousa (nome de rio português), os Souto (lat. saltum, “bosque denso”), os Toledo (de Toletum, capital do povo carpetano), etc.
Houve um tempo… muito, muito lá atrás, em que o pai, o nome do pai, era uma registro de pertença e, reverenciado, se fixava como sobrenome. Surgiam os Álvares (filho de Álvaro), os Antunes (filho de Antônio), os Bernardes (filho de Bernardo), os Dias (de Diogo), os Gomes (de Guma), os Gonçalves (de Gonçalo), os Hendricks (hol., de Henrique), os Marques (de Marco), os Martins (de Martim), os Mendes (de Mendo), os Nunes (de Nuno), os Rodrigues (de Rodrigo), os Sanches (de Sancho), os Simões (de Simão), os Vasques (de Vasco). E, ainda, os de origem inglesa ou nórdica, os Anderson (de André), Jefferson (de Jeffrey), os Nielsen (de Niels), etc.
Houve um tempo… muito, muito lá atrás, em que características físicas, de origem ou de caráter afloravam de maneira tão expressiva, que se tornavam imediatamente incorporados à individualidade e, portanto, ao nosso prenome. Surgiam, assim, os Crespin (cabelos crespos), os Trigueiros (de pele morena), os Bergel (perneta), os Veloso ou Laniado (peludo), os Franco (de França), os Tedeschi (da Alemanha), os Habib (querido), os Sereno (calmo), os Sedaka (caridoso), os Gusmão (al., o bom homem), os Chaves (lat. aquis flaviis, “águas sulfurosas”), os Miranda (lat., digno de ser admirado), os Veríssimo (lat., muito verdadeiro), os Furtado (ilegítimo), os Morato (it., morenos), os Nagib (ár., sagaz), os Mansour (ár., vitorioso), os Varela (pessoa alta e magra), os Vicente (vencedor), etc.
Houve um tempo… muito, muito lá atrás, em que imagens, cores ou elementos da natureza eram tomados como extensões de nosso espírito (ou do conjunto familiar) e agregados ao prenome. Surgiam, assim, os Celeste (da cor azul-celeste), os Branco ou Melul (ár., branco), os Cruz, os Leão, os Falcão, os Cordeiro, os Lobato (lat., pequeno lobo), os Oliveira, os Pereira, os Gabizon (ár., diamante bruto), os Bismuth (ár., pão endurecido), os Aguiar (lat., águia), os Albuquerque (lat., carvalho branco), os Almeida (ár., mesa), os Amorim (amor), os Avelar (lat., avelã), os Azambuja (ár., “azeitona silvestre”), os Azevedo (lat., do vegetal azevinho), os Freitas (lat. fractas, “pedras quebradas”), os Gouveia (lat., alegria), os Ventura (sorte), etc.
Houve um tempo… muito, muito lá atrás, em que simples palavras, como nossos sobrenomes, acolhiam preciosas paisagens interiores…