Arquivo de agosto de 2004

31 de agosto de 2004

Gloßário: refeição

O vocábulo deriva do lat. refectio, -onis — refeição, restauro, reparo, recuperação –, por sua vez formado a partir do verbo reficio, -feci, -fectum — refazer, restaurar, renovar, reconstruir, reparar (tanto o corpo como a mente) etc. –, composto de pref. re- e facio, fazer. Uma refeição é portanto uma re-feitura, e realizá-la é se refazer, se restaurar.

Restaurante deriva do fr. restaurant, significando, desde o séc. XVI, caldo de carne com qualidades reparadoras. A partir de 1765, restaurant (ou maison de santé) passou a designar o local onde o caldo era servido. Restaurant deriva do verbo restaurer, formado a partir do lat. staurus, por sua vez derivado do gr. stauros — barra ou estaca ereta — e do sanscr. sthavaras, firme. Estes vocábulos são procedentes da raiz indo-européia sta, estar de pé, assim como o verbo português estar.

Assim, a refeição, se refazer e se restaurar, renova a posição ereta, de estar.

28 de agosto de 2004

Arrastar, puxar (lat. trahere, tractus)

Foi vigorosa a atração que senti ao te ver. Tua silhueta me arrastou como um trator, ora me contraindo qual novelo de linha, ora extraindo minhas forças à exaustão. Retraído por tua ausência, descontraído por tua presença, tornaste-me vulnerável e debilitado. Subtraído da alegria, num momento distraído te propus um trato: dá-me teu retrato! Esse seria um conforto por não te saber por perto… algo como distração. Bobagem, disseste. A abstração me faria sofrer mais! Era esse o tratamento que merecia por te julgar atraente? Abandono-me intratável, tentando extrair da confusão interior algum traço de auto-estima. Só me resta pegar um trem para Pasárgada! Misericórdia, Bamherzigkeit, pobre coração…

Mais vidinhas espantosas

1.
Dona Josefa, prestimosa na lida da casa, bordava desde a infância. Dos paramentos do padre aos uniformes da Lira, tudo arrancava sorrisos, aplausos e elogios, até mesmo das comadres falsas. “Seu” Nicanor, sitiante e herdeiro da melhor criação de porcos da região, tinha fama de linguiceiro desde a juventude. Das barracas da Quermesse ao churrasco do Delegado, suas lingüiças eram, desde sempre, degustadas e saboreadas com unanimidade. O filho temporão selou de vez essa união: Josenor deveria espelhar os pendores maternos e a persistência paterna. O caçula, no entanto, jamais obteve sucesso em retribuir-lhes o amor. Desajeitado e impaciente, ano após ano, excluiu-se da família e da vila. Após a morte dos velhos, retornou à cidade. Embebedou-se, desafiou a todos e acabou preso. O Delegado comprovou-lhe o desesperado amor filial: na cela, sua cueca exibia uma desajeitada tentativa de bordado de porquinho em ponto cruz!

2.
O paletó limpíssimo, embora desbotado, e a calça puída e larga compunham o uniforme de Américo, submisso e dedicado porteiro da Têxtil Aurora. Obcecadamente evitava o menor deslize na separação da correspondência, ou desatenção para com os recados, ou comentários irreverentes sobre os colegas, ou… Enfim, temia contratempos e repetia solenemente para si: “A desgraça nunca vem só!”. Após o feriado da Pátria atrasou-se, pela primeira vez na vida, em seu horário matinal. Corrida desabalada, desodorante vencendo, enxaqueca. Premeditando punição, talvez até demissão, preferiu a infâmia de simular doença, desculpando-se com o chefe da Zeladoria. Ao final do dia, a notícia inesperada ecoava pela cidade: a empresa pedira falência! Desnorteado, Américo tentou conciliar o sono. Antes da madrugada, jazia lívido, vítima de ataque fulminante.

26 de agosto de 2004

Vidinhas espantosas

1.
Nascera de família respeitável (em Minas, isto é pleonasmo!): era um anjo, comentavam. No colégio católico, algumas vezes escapara por milagre de ser reprovado. Fez-se homem de negócios sem muito sucesso apesar dos esforços. A culpa, explicava, era o governo com os seus planos mirabolantes e a falta de fé do povo. Após o casamento, começou a sofrer de insônia. Comentava-se que era frustração por não enriquecer. Decorava Salmos inteiros: dizia serem eficazes para diferentes males e resgatar vítimas de solidão. A bucólica tranquilidade só se rompeu após sua morte. A mulher e os dois filhos se fecharam em profundo silêncio. No cofre da loja, em meio aos papéis administrativos, o espanto: delicadas estampas de santos recobertas de palavrões!

2.
O pai desempregado bebia. A mãe abandonara-se. E ele tinha apenas dezessete. Aos dezessete não se consegue emprego: era voz geral. Se ao menos conseguisse vencer o oponente do tabuleiro de xadrez no Bar do Juca, acreditava que se tornaria feliz… Para sobreviver tinha que arranjar namorada com quem mataria o desejo de ser homem. Ou talvez aprender alguma luta marcial para dominar a vontade de chorar. Ou talvez, ainda, ligar-se a um grupo qualquer da Igreja para entender as tortuosas escritas do Deus. Descobriu, anos mais tarde, que tudo fora apenas um ensaio para o que viria.

3.
Juntou-se ao grupo e partiu para o banho do rio. Na corrida lembrou-se do aviso de não provocar brigas, mesmo que os garotos zombassem de suas pernas tortas. Depois do pasto, a tentação: jabuticabas imploravam para serem comidas. Saciado ainda imaginava o que as irmãs diriam quando soubessem. No rio, a crispação violenta percorreu todo o corpo. Era a tal de congestão. Pelo resto da vida, ficou a cismar o quanto suas pernas combinavam com os arcos das rodas da cadeira. O sabor das jabuticabas azedou em suas memórias.

25 de agosto de 2004

Diário de férias - conclusão

Deixei, nas costas, o Sol cantando promessas de reencontro!

Confissão

Na infância, ensinaram-me a repetir meu nome exaustivamente.
No colégio, iniciei-me na Aritmética pela adição.
Tornei-me, enfim, o egoísta que sou, aperfeiçoando-me a cada dia!

23 de agosto de 2004

O povo brasileiro comemora

Eu digo, quem é esse Robert Scheidt que ganhou a medalha de ouro para o Brasil, gente? O moço é brasileiro, é? Branquinho daquele jeito…

22 de agosto de 2004

The Moon, La Lune

O herói retorna do pico da mais alta montanha até a civilização, trazendo o cálice sagrado. A Lua ilumina seu caminho ansiosa. Depois do último horizonte avistam-se duas torres, o portal da cidade. Dentro da floresta, lobos e cães uivam. O herói segura com ainda mais firmeza o cálice, a consubstanciação celestial do sucesso de sua jornada. Ele se sente forte para dar seus últimos passos, depois de ter enfrentado o medo em muitas selvas e pântanos escuros.

Ouvindo ainda os sons dos animais e de um rio que cruzou no caminho, o herói atravessa o portal e avista um cidadão conhecido.

– E aí mano herói? Se liga na bolinha do zóio, que o movimento na noite tá pampa.

O herói cumprimenta o amigo que chegava da balada e exibe o cálice sagrado, iluminado parcialmente pela Lua.

– Olha o cara. Que papo é esse, mano? Que merda é essa? Porra, lá vem tu com esses bagulho escroto de novo? Não é da galera do surf, não é da galera do skate… E agora a galera é toda clubber. Cadê teu pierce, maluco?

O herói atravessa o portal e encontra um amigo que chegava da balada acompanhado da galera.

– E aí mano herói? Se liga que a galera agora é toda clubber.

O herói entra e encontra a galera chegando da balada. Avista a donzela iluminada parcialmente pela Lua e cumprimenta um amigo que se aproxima.

– E aí? Se liga que a galera agora é toda clubber e a mina tá comigo agora. Cadê teu pierce, maluco? Que merda é essa que tu tá levando? Passa pra cá…

O herói chega e avista a mina, iluminada parcialmente pela Lua. Um mano da galera que está com ela avança, se colocando entre a mina e o herói.

– Se liga mano, que a mina tá pampa e tá comigo agora. Que roupa é essa? Que papo de auto-ajuda é esse, maluco? Que porra é essa que tu tá levando? Passa essa merda pra cá…

O mano dá uma bica no herói, arranca o bagulho das suas mãos e sai arrastando a mina. A mina grita.

O herói se levanta quando começa a aurora. Olha ao redor e não vê ninguém. Ele está fora da cidade. Sangra e lembra que foi humilhado por causa de uma mulher. Uma vagabunda qualquer…

Monta num cavalo que estava amarrado ao portão da civilização e sai cavalgando livre em busca de uma montanha ainda mais alta, com o caminho iluminado pelo Sol.

Deixa o mano humilhar os outros manos da galera, por causa de uma vagabunda qualquer…

18 de agosto de 2004

Como disse?

O jovem foi levar uma questão ao rabino Elfus. Ele imaginou que perguntar “você gostaria?” no lugar de “eu posso?” seria uma forma mais respeitosa de pedir permissão antes de agir diante de outro membro da comunidade.

– Assim considero o outro… O que o rabi acha disso?

O rabino pensou. Não se sabe o que foi, pois o rabino não disse o que pensou, apenas o que disse depois de pensar.

– O jovem pensa bastante. Mazel tov! Você perguntou se eu gostaria de ouvir sua questão? Eu não me importo. Nem sei se gostaria. Posso lhe assegurar apenas que gostei de como você contou…

16 de agosto de 2004

Como num passe de mágica

Nunca é demais lembrar das idéias sublimes que pairavam sobre as palavras daquele senhor de extremo bom gosto e lábios carnudos. Ele, sem titubear, fazia com que as coisas que dizia surtissem o efeito desejado. Súbita inspiração ou mero fruto da sua imaginação. A frangrância deliciosa que usava deixava ainda um cheiro doce no ar, extremamente agradável, que prendia a atenção dos ouvintes.

Não se passava um dia sem que alguém, por motivos óbvios, o procurasse. Sua casa, numa rua de subúrbio, se transformava num lúgrube palácio com tapetes macios ao se ouvir uma de suas estórias fantásticas. Por mais absurdo que pareça, o estranho mistério daqueles momentos mágicos fazia o hóspede ser tomado por uma sensação de confusão no mínimo curiosa. Suas doces palavras erguiam um labirinto enigmático.

Eu mesmo já passei horas e horas, noites a fio, ouvindo-o. A voz da sabedoria. Ou a de uma fértil imaginação? Não podia deixar de manifestar uma certa irritação ao perceber que parecia impossível separar o real e a fantasia nas coisas que eu ouvia. Problema aparentemente insolúvel. Lançar alguma luz sobre suas idéias inusitadas era, ao mesmo tempo, mergulhar na escuridão. Poderia, pelo resto da vida, nutrir a esperança de que é possível descobrir a versão real dos fatos. Ledo engano.

Levei um bom tempo até me dar conta de que ele havia visitado mares nunca dantes navegados. Suas estórias vinham de todos os cantos, de todos os lugares. E em todas deixava a sua marca. Somos todos movidos pela curiosidade. E ele sabia perfeitamente disso…