Eu já entendi. Meu pai foi pescador, moço! No mar, ele aprendeu a ouvir. A ouvir e a conhecer… O mar é como o sangue da Terra. É ele que dá vida prá todos nós. É ele que cura as tristezas e as feridas de dentro. Meu pai me ensinou! Sabe, moço, quando me dei por gente já tava longe do mar! Morei nos alagados abafadiços. Lá fiquei represado, sufocado. Sem muito prá comer, a bebida me pegou. Prá sair do lodaçal, prá não desaparecer, é preciso agir com coragem… Foi isso o que eu aprendi! E do aprendido vim prá cidade. Em cada cômodo, em cada cortiço, com a terra firme sob os pés, meu entendimento aumentou. Devagar, bem devagar, mas aumentou.
Do subúrbio até o centro da cidade, eu me sentia um boi arando a terra. Destocava o que me atrapalhava por dentro… As pedras serviam prá me sentar quando faltavam forças. Mas o plantio era feito! Ficava matutando noite e dia. E a colheita, embora pouca, era sempre alegre por dentro. O tempo passou e, hoje, já tô subindo a última montanha. Em breve, chego no topo! Lá de cima, vou avistar o mar e, com sorte, voltar a ver o meu pai… E vou contar prá ele o tanto que eu aprendi!… Tá bom, moço. Eu já entendi: o moço não tem trocado! Desculpa o velho. Não queria perturbar a sua caminhada…!