Nunca é demais lembrar das idéias sublimes que pairavam sobre as palavras daquele senhor de extremo bom gosto e lábios carnudos. Ele, sem titubear, fazia com que as coisas que dizia surtissem o efeito desejado. Súbita inspiração ou mero fruto da sua imaginação. A frangrância deliciosa que usava deixava ainda um cheiro doce no ar, extremamente agradável, que prendia a atenção dos ouvintes.
Não se passava um dia sem que alguém, por motivos óbvios, o procurasse. Sua casa, numa rua de subúrbio, se transformava num lúgrube palácio com tapetes macios ao se ouvir uma de suas estórias fantásticas. Por mais absurdo que pareça, o estranho mistério daqueles momentos mágicos fazia o hóspede ser tomado por uma sensação de confusão no mínimo curiosa. Suas doces palavras erguiam um labirinto enigmático.
Eu mesmo já passei horas e horas, noites a fio, ouvindo-o. A voz da sabedoria. Ou a de uma fértil imaginação? Não podia deixar de manifestar uma certa irritação ao perceber que parecia impossível separar o real e a fantasia nas coisas que eu ouvia. Problema aparentemente insolúvel. Lançar alguma luz sobre suas idéias inusitadas era, ao mesmo tempo, mergulhar na escuridão. Poderia, pelo resto da vida, nutrir a esperança de que é possível descobrir a versão real dos fatos. Ledo engano.
Levei um bom tempo até me dar conta de que ele havia visitado mares nunca dantes navegados. Suas estórias vinham de todos os cantos, de todos os lugares. E em todas deixava a sua marca. Somos todos movidos pela curiosidade. E ele sabia perfeitamente disso…