1.
Dona Josefa, prestimosa na lida da casa, bordava desde a infância. Dos paramentos do padre aos uniformes da Lira, tudo arrancava sorrisos, aplausos e elogios, até mesmo das comadres falsas. “Seu” Nicanor, sitiante e herdeiro da melhor criação de porcos da região, tinha fama de linguiceiro desde a juventude. Das barracas da Quermesse ao churrasco do Delegado, suas lingüiças eram, desde sempre, degustadas e saboreadas com unanimidade. O filho temporão selou de vez essa união: Josenor deveria espelhar os pendores maternos e a persistência paterna. O caçula, no entanto, jamais obteve sucesso em retribuir-lhes o amor. Desajeitado e impaciente, ano após ano, excluiu-se da família e da vila. Após a morte dos velhos, retornou à cidade. Embebedou-se, desafiou a todos e acabou preso. O Delegado comprovou-lhe o desesperado amor filial: na cela, sua cueca exibia uma desajeitada tentativa de bordado de porquinho em ponto cruz!
2.
O paletó limpíssimo, embora desbotado, e a calça puída e larga compunham o uniforme de Américo, submisso e dedicado porteiro da Têxtil Aurora. Obcecadamente evitava o menor deslize na separação da correspondência, ou desatenção para com os recados, ou comentários irreverentes sobre os colegas, ou… Enfim, temia contratempos e repetia solenemente para si: “A desgraça nunca vem só!”. Após o feriado da Pátria atrasou-se, pela primeira vez na vida, em seu horário matinal. Corrida desabalada, desodorante vencendo, enxaqueca. Premeditando punição, talvez até demissão, preferiu a infâmia de simular doença, desculpando-se com o chefe da Zeladoria. Ao final do dia, a notícia inesperada ecoava pela cidade: a empresa pedira falência! Desnorteado, Américo tentou conciliar o sono. Antes da madrugada, jazia lívido, vítima de ataque fulminante.