Vidinhas espantosas

1.
Nascera de família respeitável (em Minas, isto é pleonasmo!): era um anjo, comentavam. No colégio católico, algumas vezes escapara por milagre de ser reprovado. Fez-se homem de negócios sem muito sucesso apesar dos esforços. A culpa, explicava, era o governo com os seus planos mirabolantes e a falta de fé do povo. Após o casamento, começou a sofrer de insônia. Comentava-se que era frustração por não enriquecer. Decorava Salmos inteiros: dizia serem eficazes para diferentes males e resgatar vítimas de solidão. A bucólica tranquilidade só se rompeu após sua morte. A mulher e os dois filhos se fecharam em profundo silêncio. No cofre da loja, em meio aos papéis administrativos, o espanto: delicadas estampas de santos recobertas de palavrões!

2.
O pai desempregado bebia. A mãe abandonara-se. E ele tinha apenas dezessete. Aos dezessete não se consegue emprego: era voz geral. Se ao menos conseguisse vencer o oponente do tabuleiro de xadrez no Bar do Juca, acreditava que se tornaria feliz… Para sobreviver tinha que arranjar namorada com quem mataria o desejo de ser homem. Ou talvez aprender alguma luta marcial para dominar a vontade de chorar. Ou talvez, ainda, ligar-se a um grupo qualquer da Igreja para entender as tortuosas escritas do Deus. Descobriu, anos mais tarde, que tudo fora apenas um ensaio para o que viria.

3.
Juntou-se ao grupo e partiu para o banho do rio. Na corrida lembrou-se do aviso de não provocar brigas, mesmo que os garotos zombassem de suas pernas tortas. Depois do pasto, a tentação: jabuticabas imploravam para serem comidas. Saciado ainda imaginava o que as irmãs diriam quando soubessem. No rio, a crispação violenta percorreu todo o corpo. Era a tal de congestão. Pelo resto da vida, ficou a cismar o quanto suas pernas combinavam com os arcos das rodas da cadeira. O sabor das jabuticabas azedou em suas memórias.

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