Da série “Depoimento verdade”

Ainda não aceito o medo da morte;
ainda gosto de ouvir histórias de amigos;
ainda gosto de cheiro de bolo de fubá;
ainda me lembro da paciência do moré Eliezer nas aulas de hebraico;
ainda não li tudo o que precisava;
ainda respeito a dor do próximo;
ainda não “rasguei” o verbo como gostaria;
ainda deixo para depois o que posso fazer agora;
ainda considero os amigos como tesouros da vida;
ainda desconfio de gente que pisa macio e oscila a cabeça;
ainda me espanta a minha própria fúria;
ainda não sei esquiar na neve;
ainda creio ser a adolescência uma doença mental quase sempre passageira;
ainda me diverte nomear qualquer iogurte de Danone;
ainda penso ser a psicanálise uma pura perda de tempo;
ainda me envergonho de ser egoísta;
ainda quero voltar a flanar em Brugge;
ainda não sei para quem dar meus soldadinhos de chumbo;
ainda tenho medo de pessoas, mesmo as não muito estranhas;
ainda me resta saudade de caneta tinteiro;
ainda me espanta o desrespeito à velhice;
ainda gosto de buscar paisagens na memória;
ainda detesto hermenêutica;
ainda me incomoda a falta de pudor de certas pessoas;
ainda não consigo controlar o meu tempo;
ainda não aceito palavras doces de um coração amargo;
ainda me revolta ouvir pregações moralistas;
ainda guardo segredos sobre fisiognomonia;
ainda desconfio de que depressão e covardia são sinônimos;
ainda me fascinam as idéias ingênuas de Matila Ghyka sobre arte e vida.

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