O meu sonho

Há dias em que sonho com o meu sonho. Pura doença mental. Ele, o meu sonho, no entanto, é ainda quase uma criança. Por vezes, sem nenhuma causa aparente, ele assovia de contente e, é possível, de uma saudade insuspeitada ou mesmo inexistente. O meu sonho também chora em silêncio para eu não me assustar. Sei de suas longas trilhas, sem fazê-lo perceber. E, se disso ele se apercebe, o meu sonho não se aquieta passivo, e falamos. Fala-me, o meu sonho, para resgatar-lhe os ancestrais do olvido. O meu sonho é sempre mui gentil, ainda que disto nem mesmo ele desconfie. Vez por outra, o meu sonho me confere a surpresa de sínteses tão minhas (embora eu não as tenha atingido ainda). Certa vez, ensinei meu sonho a jogar bolinhas, como num jogo de pingue-pongue. Hoje, ele é mestre na arte. Depois, dele recebi cartões de lugares distantes e com letras ainda mais lindas. Falou-me do tempo e de si. Meu sonho sabe se fazer presente, embora à distância. O meu sonho tem a mente inquieta e um par de olhos a espreitar. Sempre a espreitar. E sempre a se inquietar. Quase me esquecia: o meu sonho se faz imprevisível com competência e zelo. Perfuma-se para mim, quando dele só espero o vir. Sei-me tolo mas, por vezes, imagino o meu sonho em uma vidraça a se fartar de olhar para o mundo. E, proh pudor!, a sonhar comigo.

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