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Assim, inopinadamente, tornei-me modelo de resposta. Incomoda-me o prejuízo causado a outros. Estou a mudar, estou a mudar.
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O silêncio constrange, porém o falar incita-me a dizer menos sobre o essencial. E isto é o diabo!
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Você esperava provas sobre a seminalidade da vida. Hesito! Ocorre-me apenas um ou dois motivos para prantear toda a má sorte deste episódio.
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Frugal nas intenções para o novo ano. Descomedido nas lembranças do que poderia ter sido. Afinal será isto medo?
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Nada das suposições fazia sentido. Então, a regra é pautar-me conforme o desamor.
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Férias constam do calendário, é verdade. Mas só no calendário. E são inúteis conforme o meu humor variável.
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Acordei com emoções de impossível tradução. Valha-me! Ainda há o resto do dia para recolher asneiras.
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Não sei. Repito, nada sei. E acho que saber tudo é besteira. Aliás, só sei besteiras, confesso!
Arquivo de dezembro de 2004
Excertos de diário (quase) cinzento
terça-feira, 14 de dezembro de 2004It’s Xmas. Ganhei os contos!
segunda-feira, 13 de dezembro de 2004(Giancarlo)
E ele entrou no bar com a bunda de fora, bêbado e drogado, querendo matar o dono. Então, alguém lhe disse:
– “A placa diz bar de respeito. Por favor, sem excesso!”
Envergonhado, o elemento levantou as calças e pediu uma pinga.
(Eric)
Alemanha, ou Tyskland, como ele diz, é o seu destino. De bicicleta, o rapaz dentuço, ruivo, de costeletas cacheadas e com um “s” no nome percorre o mesmo caminho de seu avô: saiu das terras baixas, muito longe do céu, sem ninguém saber o motivo.
Um motivo ele tem, mesmo sem saber qual foi o do avô. Chegará na estalagem outrora pertencente à sua avó — foi onde seu avô estacionou sua bicicleta pela última vez — e lá o rapaz terminará seus dias. Terminará. Terminará tomando um porre.
(anônimo)
O fado é sempre uma desculpa para aquecer-me o inverno!
It’s Xmas. Quero presente sob medida!
segunda-feira, 13 de dezembro de 2004Escrevo há seis meses nesse blog e me divirto muito. Meus leitores, bem… Mesmo assim, quero ganhar um presente. E como já estou a pedir, não me custa fazer exigências.
Quero ganhar um conto:
a) com, no máximo, 100 palavras;
b) com três dessas palavras ou expressões: aujourd’hui, desculpa, cordão de ouro, envergonhado, crenças, inverno, quero mais, antena, excesso, inquietude, visão da tarde, porre, magricela, proibido, ódio, até amanhã, bunda, alma estreita, fado, Alemanha, longe do céu, índio, famigerado, risos, soletrar, someone.
c) escrito na terceira pessoa do singular (ele,ela)
Aguardo!
Ah! e só volto a “postar”, depois de ganhar ao menos três contos.
Até um dia, ou até nunca mais!
Brasil Profundo 4 – Bangüê
domingo, 12 de dezembro de 2004O fogo no bangüê… inda me alembro. Tristeza só. Tava na cafua e a mucama me salvou. Era noitinha. Nasci no engenho de bangüê. Vivi no canavial. Poucos fugiu pro quilombo. Sinhozinho bão. Tinha um mulato com Nhá Zefa. Nas festa de São Binidito, só comia acarajé, vatapá, xinxim. Fartura das grande. No canavial, um mameluco xingou o mulato de Nhá Zefa. Mas ele era bamba que nem Sinhozinho. Sungou as calça pro mameluco curinga, que se enterrou pros cafundó. Eh, eh. Depois do fogo, sobrou só eu e a mucama perdido nesse grotão. Depois ela foi também. Já sou corcunda, banguela, mas se alembro dela e do acaçá branquim nas folha de bananeira. Era um cafuné pra mim. A mucama tá no céu mais Nossinhora. Lá é só fartura das grande. Aqui, só fubá. Eh, eh.
Cultivo da Fala – I
sábado, 11 de dezembro de 2004(um olhar sobre as consoantes)
Nossos antepassados, em seu período pré-verbal, registravam a experiência cotidiana através de movimentos. A idéia de proteção, por exemplo, era evocada por um movimento corporal fechado, e a chegada da luz, por um gesto de abertura, de deslumbramento. Esse gestual arcaico se restringiu paulatinamente até restar apenas o movimento da laringe. Ali, com a passagem do ar e conseqüente vibração das cordas vocais, pudemos produzir sons, verdadeiras sínteses do gestual de nossos ancestrais. As vogais evocam nossa experiência interior, enquanto as consoantes são a imitação das formas do mundo exterior.
A consoante b, por exemplo, expressa uma idéia de fechamento, estar ou buscar fechamento, limitação ou forma definida. Observe os exemplos: bacia, baú, beco, beiço, bola, bolsa. Por oposição, palavras iniciadas pela consoante l expressam idéia de abertura, de desdobramento: lágrima, lama, leito, lesma, liberdade, luz. Assim, ao destacarmos apenas as consoantes de uma palavra ou frase obtermos um desenho fiel da experiência corporal humana ali presente.
Observem o elemento som, o gestual congelado, na seguinte sucessão de consoantes: p n s s q s t n c. O p sugere carapaça, proteção; o n, renúncia, negação; o duplo s, contração; o q, dureza cristalina; outro s, contração; o t, algo claro, mas duro; o n, renúncia, negação; e, finalmente, o c, expansão ilimitada.
Qual a impressão geral expressa pelo som? A de algo a aflorar da escuridão, contrair-se e corporificar, contrair-se e iluminar, renunciar e expandir-se.
O mais curioso é a chamada experiência do som coincidir com o conteúdo intelectual!
Em tempo, a sucessão exemplificada acima se refere à invocação da oração cristã Pai Nosso.
Leitura obrigatória
sábado, 11 de dezembro de 2004Gostaria de dividir, com todos, essa Carta Aberta do Tiago.
Do Terceiro Domingo do Advento
sexta-feira, 10 de dezembro de 2004A vida é comovente (lat. commovere, mover muito, agitar, emocionar, enternecer), porquanto labutada, repleta de futuros, de sentimentos e de olhares delicados e corretos. Assim, desprezo com veemência todas as traduções (na teoria e na prática) da vida como algo de melancólico, em que a patologia de lágrimas, soluços e gemidos substitua a expressão de plena alegria, natural ao espírito humano. Chega de condescendência com a banalização da pieguice! A vida não rima com afligir-se, lacrimejar, lamentar, suplicar, prantear. Isto tudo é covardia, deslealdade para com o Plano Original da Criação. Eu lhes pergunto: Não basta o milagre de estarmos vivos e conscientes para nos regozijarmos com a plenitude da luz?
Que a proclamação do 3º Domingo do Advento se torne imperativa nas fibras do coração de cada ser humano. É o meu desejo sincero!
Sovacos e sovacadas: a cultura
quinta-feira, 9 de dezembro de 2004A melhor crônica sobre o Brasil-pandeiro-inzoneiro que eu já li, está aqui.
Ofício – 1
quinta-feira, 9 de dezembro de 2004Outro dia conheci um escritor e fiquei a pensar: interessante essa vida de ficar inventando histórias para os outros se distrairem, não é? E, enquanto o escritor falava de si, eu imaginava a sua casa. Devia ter um gigantesco armário só para os grandes livros de capa escura, além de pequenas caixas coloridas para os outros. Empilhados, no lado direito, dicionários de todas as línguas dos povos e, no lado esquerdo, maços de lápis macios, muito assemelhados a varinhas mágicas. Talvez, pelo chão, salpicassem bastões de cola para grudar palavras ou expressões rebeldes e desobedientes a inúmeros comandos. Pequenos cestos junto às janelas reuniriam linhas invisíveis para alinhavos especiais de capítulos. Sobre o aparador, lunetas, sim, poderosas lunetas para observar detidamente os incipientes sobressaltos e os elaborados questionamentos humanos a serem colecionados em seu coração. O escritor seguramente teria réguas, ao menos uma dúzia, calibradas em centímetros e polegadas para melhor avaliar a extensão das emoções e perplexidades dos personagens. E, também, reunidos sobre a mesa de trabalho, pequenos pires com distintos sabores da experiência humana, das muito doces às mais acres, além de estojos de aquarelas para matizar cada diálogo ou encontro do herói com os seus pares. Mapas, claro que sim, repousariam em grandes tubos cromados mapas de diferentes lugares para melhor localizar as possíveis paisagens dos encontros de cada pessoa ou animal de seus textos. Nas gavetas, inúmeros objetos utilíssimos para o exercício da criatividade verbal: velas de acendimento automático para instantâneas soluções de impasses narrativos, frágeis peneiras para selecionar conteúdos de parágrafos, além dos óbvios cadeados para manter em segurança as futuras tramas de próximos escritos. Pelas paredes, espelhos cristalinos a refletir, de forma inequívoca, qualquer movimento e emoção de cada personagem, além de inúmeros flocos de algodão para as habituais reflexões silenciosas do literato. Finalmente, dispersos por toda a casa vasos para diversos estilos de arranjos florais como suporte necessário para saudar a entrada em cena de cada tipo em seus enredos. Imagino a casa de um escritor uma grande cornucópia de saudades e sorrisos a lembrar, a lembrar.
Brasil Profundo 3 – Desatino
quarta-feira, 8 de dezembro de 2004Para o pecador, a calma é mais distante. Se beijei, tinha que ser. Na vida só tem os possíveis. E então, penosamente ficou sem dar satisfação. A bofetada e todos os disparates valeram seu vigor. Só a coitada gemia. E dos remendos nada ficou coerente. Só as lufadas de olhar desescondido. E o resto, a lenga de sempre. A vizinha penhorada e de olhos esbugalhados maldizia a sina. Como se não houvera razão para a gritaria. Desejo é como briga: ninguém sabe bem se termina. Outrora, não discutia. Nem raiva subia na boca. A fisgada no pescoço arrematava-lhe a figura. Era um pecador dos Mandamentos. E para ele, a calma corria longe. E eu ‘tou fazendo conversa comprida pelo temor de julgar. Duvida? A moça galopou com os olhos pela janela, igual ararinha de gaiola. Premissa de covarde, promessa de fuga. Não se espante. É figura de manha que vai se arrepender. O beijo era filho da vida, como as águas que alcançam até gente que não presta. E esquecer de coração não se pode, assim como se ama a língua da terra. Não tem jeito. Fui e vou quando me aprouver. ‘Tou em pecado, porque atrasei de conhecê-la. De resto, nenhuma culpa carrego. Só a de ser menino sem rodeios. E já vou para o embora.