Cultivo da Fala - I

(um olhar sobre as consoantes)

Nossos antepassados, em seu período pré-verbal, registravam a experiência cotidiana através de movimentos. A idéia de proteção, por exemplo, era evocada por um movimento corporal fechado, e a chegada da luz, por um gesto de abertura, de deslumbramento. Esse gestual arcaico se restringiu paulatinamente até restar apenas o movimento da laringe. Ali, com a passagem do ar e conseqüente vibração das cordas vocais, pudemos produzir sons, verdadeiras sínteses do gestual de nossos ancestrais. As vogais evocam nossa experiência interior, enquanto as consoantes são a imitação das formas do mundo exterior.
A consoante b, por exemplo, expressa uma idéia de fechamento, estar ou buscar fechamento, limitação ou forma definida. Observe os exemplos: bacia, baú, beco, beiço, bola, bolsa. Por oposição, palavras iniciadas pela consoante l expressam idéia de abertura, de desdobramento: lágrima, lama, leito, lesma, liberdade, luz. Assim, ao destacarmos apenas as consoantes de uma palavra ou frase obtermos um desenho fiel da experiência corporal humana ali presente.
Observem o elemento som, o gestual congelado, na seguinte sucessão de consoantes: p n s s q s t n c. O p sugere carapaça, proteção; o n, renúncia, negação; o duplo s, contração; o q, dureza cristalina; outro s, contração; o t, algo claro, mas duro; o n, renúncia, negação; e, finalmente, o c, expansão ilimitada.
Qual a impressão geral expressa pelo som? A de algo a aflorar da escuridão, contrair-se e corporificar, contrair-se e iluminar, renunciar e expandir-se.
O mais curioso é a chamada experiência do som coincidir com o conteúdo intelectual!
Em tempo, a sucessão exemplificada acima se refere à invocação da oração cristã Pai Nosso.

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