E se quisessem os deuses, que este tão ilustre e tão numeroso público leitor saísse hoje tão desenganado do blog, como vem enganado pelo blogueiro (ou bloguista?). Ouçamos a história e ouçamo-la toda, que toda é a vida a nos pregar peças e, quem sabe, a nos fazer de vítimas (que é o mais comum e certo!).
Lá pelos idos dos anos setenta, em Praga, nasciam Ennver e Joey. E cresciam como grama feliz sob o Sol e comiam geléia de tudo-quanto-é-fruta. Mas nem engordaram (que inveja) e nem se tornaram morenos ou certeiramente desejáveis. Só cresceram. E, então, como é bom que aconteça com adultos em tempo de desesperança, não perderam o hábito de presentear amigos. Deles ganhei um sorriso. E afagos.
Depois, Ennver passou a buscar amigos. Sentia-se uma criança do medo. Tão sofrido, tão alheio! E Ennver se distraía com Massive Attack. Chill out, sabe como é, né? Joey, bem… bebia ocasionalmente e buscava notícias de parentes mortos. Tsk, tsk. Não sei como lhes falar!
Juntos, Ennver e Joey não valiam nada. Separados, eram só a crônica do vir-a-ser. Till the end of time.
Arquivo de dezembro de 2004
Vou contar outra história!
terça-feira, 7 de dezembro de 200425 Kislev
terça-feira, 7 de dezembro de 2004Sempre a rodar, o pião brinda-nos com a sorte!
A cidade e um rio, como na canção
terça-feira, 7 de dezembro de 2004(para Jamille S.)
Sobre a cidade, estrelas cintilam enquanto sussurra a brisa da noite e pássaros cantam. E um rio diz sonhe comigo. E me diga que sentirá minha falta, pois estou tão só e tão triste como nunca. Sonhe comigo!
Sobre a cidade, as estrelas vão sumindo. Porém, um rio insiste em querer beijá-la e retardar a madrugada. Tenha doces sonhos até que os raios do sol a encontrem. Doces sonhos a deixar todas as preocupações para trás. Em seus sonhos, no entanto, quaisquer que sejam, sonhe comigo!
Como Dante, a caminho do Inferno
segunda-feira, 6 de dezembro de 2004Muito além do meio da vida, também me perdi numa escura floresta, pois o caminho (sempre ele!) estava errado. Poderia a montanha ao longe ser a redenção para escapar daquele Limbo? Bem antes de atingi-la, cercaram-me figuras emblemáticas: o altivo Set egípcio, o leão assassino de Simão, o judeu, e a amedrontadora loba infernal de Marmólice. Outra vez, se ratificava o que eu já sabia: não me permitia a simples rendição! Sem Beatriz, nem Virgílio, cruzei solitariamente os nove círculos do Inferno, a observar o expurgo de diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, as cidades e os demônios. Tremi diante de Lúcifer no centro da Terra e mergulhei em sombrios e tortuosos subterrâneos. Exausto, aflorei do outro lado da Terra e voltei a ver o céu e as estrelas!
Por vezes, há emoção – I
segunda-feira, 6 de dezembro de 2004Quando se celebra a vitória do Sérgio, do Empalavrado, no Concurso de Contos do blog português Chá de Limão! Parabéns!
Repensando a biografia
domingo, 5 de dezembro de 2004(reflexões antroposóficas)
A adolescência inaugura o despertamento de duas forças independentes: uma puramente corporal, a da sexualidade (impulsos sexuais), e outra profundamente anímica, a do amor (Eros, o deus grego do amor).
Graças às forças de Eros é que, desde a adolescência, sentimos apreço e admiração pelo outro, intuindo-lhe o ser profundo e suas qualidades.
Esta fonte de amor e ternura, ao mesmo tempo, estimula a criatividade tanto de quem ama, quanto de quem é amado.
Até mesmo a saúde do ser humano, entendida como a faculdade de assumir problemas e fazê-los evoluir para uma solução, está diretamente fundamentada nessa força de Eros.
Se a natural aspiração de reencontrar, no cotidiano, uma imagem humana idealizada é reprimida, sentimos profunda decepção. Afloram, então, em nossas almas forças de autodestruição.
Vou contar uma história!
sábado, 4 de dezembro de 2004Era uma vez um escritor que assim que escrevia apagava, e todos
lhe diziam:
– Você é um fantasma caolho!
E lhe davam as costas e não lhe ofereciam nem uma fatia de bolo!
E quando ele começava a apagar os textos, as mesmas pessoas
lhe atiravam pedras e bitucas de cigarro.
Um dia então, quase ao cair da noite ele decidiu não mais escrever.
E ao se deitar sentiu o seu peito estufar:
era a esperança que brotava igual a salsinha em seu coração.
Incomodado resolveu reclamar com o rei (Ai de mim!) os direitos
de escritor que nunca lhe foram outorgados. E foi bem rápido!
A confusão se formou pois o rei era também o cozinheiro
do castelo e quando lhe sentiu o cheiro de salsinha fresca
resolveu que queria ela toda para temperar uns bifes
para o banquete real. Como não cedessem e como o escritor que
escrevia e apagava corresse muito decidiram que a prova
da corrida da salsinha deveria estar presente
também nas Olimpíadas daquela época. O rei era muito bonito mesmo
e lamentou-se de verdade de não ter tido semelhante idéia antes
e por isto disse bem alto para todos os membros da corte:
– De hoje em diante, a corrida da salsinha será o cartão postal
de meu reino e pagaremos tributos ao escritor que escrevia e
apagava!
Mas bem antes de fazer esta proclamação o rei ofereceu a mão e
também todo o resto de sua filha princesa que era muito
bonitinha para o escritor que escrevia e apagava que aceitou
porque ele também gostou da princesa filha do rei.
Depois o agora genro e o rei seu sogro ficam inventando pequenas
histórias e comem bifes com salsinha e também fumam bastante.
E a história acaba assim!
Un enfant, se faz favor!
sexta-feira, 3 de dezembro de 2004Em meio ao trânsito caótico da cidade, vi um menino sentado na calçada. Na pressa, nem pude olhar o seu rosto. E ele ficou lá, se preparando para crescer, enquanto brincava livremente com pedrinhas e experimentava, no seu silêncio, o mundo e os outros.
Divertissement intérieur – 1
sexta-feira, 3 de dezembro de 2004Uso a palavra como quem experimenta manga. Algumas se oferecem doces, outras nem tanto. Por vezes, o cheiro se debruça sobre mim e não me larga. Outras, fica à distância a me exigir paciência. Palavras são como mangas: na forma com que se moldam, na estampa com que se colorem, na textura com que se agasalham. Em meu coração, há palavras que não se escondem, como mangas expostas na fruteira. Tenho gula por palavras. As mangas me fazem sentir um alquimista a buscar cheiros, cores e texturas. As palavras, um menino em busca de surpresas.
Envelhecer – 12
quinta-feira, 2 de dezembro de 2004Perdoar o passado, faz o futuro chegar mais rápido, Asyd!