Lembranças #1

Armênios nascem em caixas de sapatos
como a celebrar as habilidades ancestrais.
Os armênios perderam as terras
e nos asseguram longas caminhadas pela vida.
O genocÃdio os condenou à morte,
e os armênios insistem em viver
o longÃnquo perdão do Cristo.
Um dia, o mundo ainda vai entender os armênios!
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Um dia fui jovem e pensei em me tornar poeta. E sonhava instaurar magia nos corações humanos com palavras incandescentes como brasas a não se extingüirem. Escreveria, então, com tintas prateadas, roubadas da solidão da lua, sobre retalhos de papel negro, como as longas noites de SolstÃcio.
À semelhança do ofÃcio de aranhas, armaria tessituras macias com rimas de toda a sorte, iluminadas nos cantos por amena poeira de Sol outonal.
Como jovem e poeta, sonhava erguer catedrais de puro silêncio para acolher cabeças doloridas pelos ruÃdos de corredores e de ruas.
Para dias de chuva, os poemas teriam arranjos de brisa para melhor iluminar o arco-iris de depois e, para os dias de tédio, versos com aquarelas ocasionais para melhor aquecer os olhos de quem os lessem.
Para os homens sem rumo, dedicaria poemas com ajustes de bússola apontada para o Oriente e, para os sem companhia, pequenas estrofes com feitio de conchas a sussurrar-lhes segredos do mar. Como poeta, para os tristes e amargurados, meus sonetos de métrica rigorosa seriam colmados de generosidade e de amor.
Aos muito jovens, minha pena escreveria poemas em louvor à cortesia da Natureza para insuflar-lhes delicadeza nos corações. Aos muito velhos, composições plenas de absoluta perseverança para exaltar-lhes a fidelidade vivida.
Um dia fui jovem.
Por Moacyr | ‘Palavra’ | Nenhum comentário »
Na soleira da porta, o passado inerte se multiplica em burburinho inconfundÃvel como caleidoscópio de desprezivel significado, mas de exibicionismo pouco comedido. O cheiro da grama e das nuvens (ah esse crescente interesse em dissecar os cheiros!) passa urgente como paisagem da janela de trem. E eu voltarei a dormir e a flertar com o delÃrio.
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Em passado remoto, mãos possessivas e algumas frases resmungadas. Desde então, olhos desdenhosos mascaram-lhe a história.
—
Seu rosto, um tributo ao belo. Sua voz, danos aos meus ouvidos.
—
Limpou a voz, acalentou o olhar e partiu. Simplesmente partiu.
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Sim, há surpresa e alegria ao publicarmos, com exclusividade, poema de autor português para o deleite de nossos leitores. Obrigado, Je_bois!
Estas olheiras
são gritos que me atiraram
e se colaram à volta dos meus olhos
Estes cabelos brancos
foram fiados em conversas sem solução
cujas raÃzes atravessam o meu corpo
e o tempo
As rugas
são estradas estreitas que percorro
em busca de um mapa
que me permita atravessar
todos os desertos
todos os oásis
Estradas de seda numa alma de pedra
neste corpo que já começa a deixar de o ser.
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(ao Gallaecus)
Por vezes, a distância acrescenta desejos. Por vezes, penso em partir e, como num sonho, reaprender o idioma galego. Por vezes, assim como agora, sinto-me viajante a carregar uma lÃngua inútil para tantas emoções.
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A cidade em que vivo é apenas uma cidade. Com tantos contrastes a despertar inteligências acadêmicas e corações de poetas, a cidade em que vivo é apenas mais uma. Repouso de muitos forasteiros, inclusive os aqui nascidos, a cidade em que vivo só me é familiar na memória que dela guardo. Não fosse ela a cidade em que vivo, gostaria de inventá-la. Parabéns, São Paulo!
Por Moacyr | Nenhum comentário »
quando insone
entre livros e memórias
rabisco textos
teimosos na inconclusão.
a memória
clareia sendas
desconhecidas
no amanhã
envelheço sim
e aprimoro
o silêncio, talvez.
Por Moacyr | Nenhum comentário »
Era o ano de 1668, e celebramos a Páscoa ainda em alto mar. Findava-se a longa e incerta viagem ao Brasil. No porto da terra, surpreendeu-me a variedade de lÃnguas e pessoas, além do calor excessivo. Em dois dias, já habitava uma cabana próxima ao mar. À época, árvores e arbustos estranhos aos meus olhos cercavam o terreno. Ao primeiro sol, afloraram os azuis e os verdes do mar e dos jardins de algas. Praias e recifes se exibiam na luz. A natureza se fazia bruta, escancarada sem pudores. Tudo muito ruidoso, tudo muito cheio de surpresas. E isto era um sinal: minha vida estava a se encaminhar. Os poucos escravos da casa se aproximavam com solenidade respeitosa. A cabana era sinônimo de descompromisso com a sobriedade lusitana. Janelas enquadravam o mar, e os dois cômodos, divididos por meia parede, cheiravam a especiarias, que se amontoavam sobre esteiras de palha. Uma escrava cantarolava na doce lÃngua dos negros e me auxiliava a guardar o enxoval. Esta era a casa do homem com quem me casara em Lisboa por procuração. Eu o vi, pela primeira vez, uma semana depois de minha chegada, num dia qualquer de muita chuva, a atravessar uma estrada de lama. Fiquei fascinada, confesso. Só voltei a vê-lo três dias depois. O senhor Dom Henriques Duarte era nascido em terras brasileiras. Tinha cabelos ruivos em constante desalinho e o rosto com sardas qual folhas miúdas a protegê-lo do vento implacável das cercanias. Estava sentado próximo à cabana desbotada, e imediatamente nos tornamos cúmplices. Além de belo, ele me emocionou, me instigou e, também, se mostrou complacente e tolerante para comigo. Sua presença me enchia de alegria e, como na surpresa das grandes paixões, enfeiticei-me por sua presença. Do nascer ao pôr-do-sol, durante toda a vida em comum, amei e respeitei o senhor Dom Henriques Duarte, meu esposo, e lhe dei três filhos que há muito partiram para outras terras. E eu, Ana Lobato, em nome do D’us, escrevo essa memória para que o tempo não a apague.
Por Moacyr | Nenhum comentário »
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