Era o ano de 1668, e celebramos a Páscoa ainda em alto mar. Findava-se a longa e incerta viagem ao Brasil. No porto da terra, surpreendeu-me a variedade de línguas e pessoas, além do calor excessivo. Em dois dias, já habitava uma cabana próxima ao mar. À época, árvores e arbustos estranhos aos meus olhos cercavam o terreno. Ao primeiro sol, afloraram os azuis e os verdes do mar e dos jardins de algas. Praias e recifes se exibiam na luz. A natureza se fazia bruta, escancarada sem pudores. Tudo muito ruidoso, tudo muito cheio de surpresas. E isto era um sinal: minha vida estava a se encaminhar. Os poucos escravos da casa se aproximavam com solenidade respeitosa. A cabana era sinônimo de descompromisso com a sobriedade lusitana. Janelas enquadravam o mar, e os dois cômodos, divididos por meia parede, cheiravam a especiarias, que se amontoavam sobre esteiras de palha. Uma escrava cantarolava na doce língua dos negros e me auxiliava a guardar o enxoval. Esta era a casa do homem com quem me casara em Lisboa por procuração. Eu o vi, pela primeira vez, uma semana depois de minha chegada, num dia qualquer de muita chuva, a atravessar uma estrada de lama. Fiquei fascinada, confesso. Só voltei a vê-lo três dias depois. O senhor Dom Henriques Duarte era nascido em terras brasileiras. Tinha cabelos ruivos em constante desalinho e o rosto com sardas qual folhas miúdas a protegê-lo do vento implacável das cercanias. Estava sentado próximo à cabana desbotada, e imediatamente nos tornamos cúmplices. Além de belo, ele me emocionou, me instigou e, também, se mostrou complacente e tolerante para comigo. Sua presença me enchia de alegria e, como na surpresa das grandes paixões, enfeiticei-me por sua presença. Do nascer ao pôr-do-sol, durante toda a vida em comum, amei e respeitei o senhor Dom Henriques Duarte, meu esposo, e lhe dei três filhos que há muito partiram para outras terras. E eu, Ana Lobato, em nome do D’us, escrevo essa memória para que o tempo não a apague.