Tornar-se poeta

Um dia fui jovem e pensei em me tornar poeta. E sonhava instaurar magia nos corações humanos com palavras incandescentes como brasas a não se extingüirem. Escreveria, então, com tintas prateadas, roubadas da solidão da lua, sobre retalhos de papel negro, como as longas noites de Solstício.
À semelhança do ofício de aranhas, armaria tessituras macias com rimas de toda a sorte, iluminadas nos cantos por amena poeira de Sol outonal.
Como jovem e poeta, sonhava erguer catedrais de puro silêncio para acolher cabeças doloridas pelos ruídos de corredores e de ruas.
Para dias de chuva, os poemas teriam arranjos de brisa para melhor iluminar o arco-iris de depois e, para os dias de tédio, versos com aquarelas ocasionais para melhor aquecer os olhos de quem os lessem.
Para os homens sem rumo, dedicaria poemas com ajustes de bússola apontada para o Oriente e, para os sem companhia, pequenas estrofes com feitio de conchas a sussurrar-lhes segredos do mar. Como poeta, para os tristes e amargurados, meus sonetos de métrica rigorosa seriam colmados de generosidade e de amor.
Aos muito jovens, minha pena escreveria poemas em louvor à cortesia da Natureza para insuflar-lhes delicadeza nos corações. Aos muito velhos, composições plenas de absoluta perseverança para exaltar-lhes a fidelidade vivida.
Um dia fui jovem.

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