Devorei teu corpo em um momento silente e me fartei com os cheiros por te saber fugaz (teu corpo em dispersão gratuita me devolveu vestígios da espera que uma paixão contém). Devorei teu corpo e tateei tua língua e me fiz pretérito como silvo, nitrido ou grito que por aqui passou (são tantos os desejos a povoar minha boca). Devorei teu corpo e tua mansidão e invejei teu nimbo e me instalei no caos (exponho-me em súmula vaidosa por me querer só teu). Devorei teu corpo e recolhi a voz, assim simplesmente, talvez à espera de teu sono enfim. Devorei teu corpo.
Arquivo de fevereiro de 2005
Aprazimento
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005Compassos
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005Meu sonho se disfarça em brilhos e me preenche a voz em notas musicais. Meu sonho desengana o tempo e me faz mesuras em dias de sol ou noites sem cor. Meu sonho também se faz severo e me recrimina o gesto afoito, e impõe regras, e me diz que só volta, se eu não o esperar. Meu sonho é como soleira do espaço, sem limites na ternura e faz, com muitos cuidados, o meu dia sorrir. Por vezes, meu sonho se mostra encantado, por outras, se mostra solerte e esquece o encontro e me propõe reticências até quando quiser.
“Pois assi se fazem as cousas”
domingo, 27 de fevereiro de 2005Mereço homem rico. Sei que mereço. E seria injustiça não conseguir um. Até minha mãe aprova. Pelo menos eu acho. O que? Não, eu acho que ela aprova eu merecer um homem rico. Eu? Eu tenho certeza! Ambição leva a gente para frente. É igual a progresso. Não tem quem não goste. Sou verdadeira, e isso espanta, por vezes. Mas já aprendi uns disfarces. Antes usava palavras sem freio, expostas assim feito pernas de menino. Encontrei palavras de vento vazio e me servem de véu. Agradam-me camaleões. Dissimulam olhares e bocas desejosas e passam indiferentes aos sofrimentos dos homens. Gosto de homens que sofrem por mim. E que não se importem de sofrer, pois o sofrimento também aumenta o prazer. Já vi muita mulher sofrer por amor. Acho que isso é tarefa para os homens. E não me considero superficial. Sou profunda no que interessa! Viu, se não me cuido, acabo por me tornar crua! Eu gosto mesmo é da cor da terra: sem mistérios, sem artifícios. É assim e pronto. Mas, reconheço, preciso me conter de vez em quando. Aprecio as pedras. É. Pedra, calhau, rochedo. Elas afundam sem temor, sem sobressalto. Queria ser uma delas nestes tempos imprecisos a congelar minhas obscenidades. Quero homem bem rico para fazer uma festa enorme. E, aí, ajudo os meus. Não quero mais ver parente feito pó da terra. E, para mim, quero vida vivida e não ser personagem de história. Acho que eu estou fazendo tristeza. Como sempre. Como todos os dias, na esperança de ser re-conhecida. Mas, no dia do meu casamento, quero atravessar o rio. Nas costas dele, para me confessar. Repete: pois assi se fazem as cousas! Repete!
Estibordo – I
sábado, 26 de fevereiro de 2005Alardeei o olhar suprimido, o carinho ensimesmado e a fome de um futuro. Silenciei com os resmungos das nuvens.
Memórias do escritor
sábado, 26 de fevereiro de 2005(para S.K.)
… (es)colher palavras de tons e meias-tintas para espelhar a alma e fartar-se com fechaduras; debruçar-se sobre a vida (toda) e alojar pedras, bichos e plantas no coração; autorizar-se a acreditar intensamente; recordar-se do que quis, sentiu e pensou para aferir empenhos; como tigre, evitar estábulos azuis, como borboleta, evitar olhares incandescentes, como cego, respirar na inteireza; e lembrar-se, sempre, da magia de tornar visível o invisível…
Segredo
sábado, 26 de fevereiro de 2005atropusematnegamo
Antes de limpar as lágrimas
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005Eu voltei aqui
para me ver
através dos teus olhos.
O tempo como janela
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005Calçadas correm em busca de ontem.
Palavras se diluem fugazes e esquecidas.
Relógios se movem em direção ao infinito.
Eu espero pelo amanhã!
Perfil
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005Sou o que se despede inquieto a evitar o olhar e abriga o impensável em névoas de silêncio. Pelas manhãs, acolho a efêmera tormenta oblíqua e o vibrante desmaiar das possibilidades. Quando anoitece, relembro a solidão do verbo e outorgo a impermanência e o abandono de distraídas dores. Reunir borrascas, aquietar demências, chafurdar o medo: eis meu ofício e castigo. Sei-me excluído da poesia.
Para C.N., com carinho
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005Pensar-te aqui
Sentir-te junto
Querer-te sempre!