“Pois assi se fazem as cousas”

Mereço homem rico. Sei que mereço. E seria injustiça não conseguir um. Até minha mãe aprova. Pelo menos eu acho. O que? Não, eu acho que ela aprova eu merecer um homem rico. Eu? Eu tenho certeza! Ambição leva a gente para frente. É igual a progresso. Não tem quem não goste. Sou verdadeira, e isso espanta, por vezes. Mas já aprendi uns disfarces. Antes usava palavras sem freio, expostas assim feito pernas de menino. Encontrei palavras de vento vazio e me servem de véu. Agradam-me camaleões. Dissimulam olhares e bocas desejosas e passam indiferentes aos sofrimentos dos homens. Gosto de homens que sofrem por mim. E que não se importem de sofrer, pois o sofrimento também aumenta o prazer. Já vi muita mulher sofrer por amor. Acho que isso é tarefa para os homens. E não me considero superficial. Sou profunda no que interessa! Viu, se não me cuido, acabo por me tornar crua! Eu gosto mesmo é da cor da terra: sem mistérios, sem artifícios. É assim e pronto. Mas, reconheço, preciso me conter de vez em quando. Aprecio as pedras. É. Pedra, calhau, rochedo. Elas afundam sem temor, sem sobressalto. Queria ser uma delas nestes tempos imprecisos a congelar minhas obscenidades. Quero homem bem rico para fazer uma festa enorme. E, aí, ajudo os meus. Não quero mais ver parente feito pó da terra. E, para mim, quero vida vivida e não ser personagem de história. Acho que eu estou fazendo tristeza. Como sempre. Como todos os dias, na esperança de ser re-conhecida. Mas, no dia do meu casamento, quero atravessar o rio. Nas costas dele, para me confessar. Repete: pois assi se fazem as cousas! Repete!

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