Arquivo de março de 2005

31 de março de 2005

Tormentos, ameaças

A força do desamor e do banimento amorteceu minhas entranhas. Abandono-me amedrontado em meio à desoladora batalha. No fundo de mim mesmo, estão exauridas quaisquer possíveis fontes de intrepidez, dedicação e obstinação. Dúvidas e incertezas se tornaram companhias permanentes nessa viagem infernal, desnecessária, injusta.
Toda a jornada se fez por desvios. Repetidamente ensaiei minha morte, repetidamente possibilidades foram obstruídas. Balizas me foram arrancadas e, assim, me intranqüilizei o tempo todo. Senti-me perdido em mim mesmo, atormentado por erros, com total certeza da incapacidade de completar qualquer tarefa. Sei-me incapaz de aceitar mais obstáculos e estorvos. Fracassos, perdas e desenganos selaram a minha caminhada.
Encontro-me abatido em um sítio de desassossego e desapego. É a covardia dos desistentes que me envolve nesse momento de trevas. Tudo em minha vida foi maldição: eis-me pleno para recusar qualquer desprezível misericórdia.
Incapacidades pontuaram minha história vulgar e indigna. Preenchido por adversidades, aprendi a odiar mais e a me cegar na totalidade. O ódio fecha meus olhos para qualquer possibilidade de luz, e descortino a trágica solidão do meu ser.
Esmoreço perturbado, desatento, entorpecido. Rodeiam-me contendores e inimigos. Desejo perder e me calar.

Pleasure

(Para Cadu)

Apraz-me brincar com palavras, sempre renovadas como as águas de um rio, sempre causando surpresas como o amanhã!

Suave é a noite

Ele se dizia amante de pássaros. Não desses reles pássaros de primavera, nem mesmo das hediondas (sic) aves de rapina. Questionado sobre quais pássaros lhe agradavam o espírito, revelou-me mansamente: os silenciosos pássaros da noite!
Tentava me recompor, quando o ouvi discorrer calmo sobre o grão-duque, que expulsa almas de mulheres mortas de parto, e as corujas que, penduradas pelos pés nas árvores, esconjuram malefícios e afastam feiticeiros e lamentos do coração.
Em sossego, lembrei-me, então, de Nyx a engendrar o sono e a morte, os sonhos e as angústias, a ternura e o engano, e a percorrer o céu, envolta num véu sombrio, sobre um carro atrelado com cavalos pretos. E, também, da noite enquanto purificação dos desejos, prometendo e preparando o dia: post tenebras, lux.
Ao fundo, ouvimos uma canção de ninar cristalinamente!

Excerpta ex umbra, Valinia

(aos incapazes de se fazer generosos para com as próprias contradições)

Há dias em que falo com o espelho, e ele me conta dos movimentos do céu e de suas estrelas, enquanto arrisco olhar o meu oceano tumultuoso de loucura.
Considerações e especulações ordenam e recriam o conhecimento sobre mim. No embaçado espelho, reflito sobre o que existe dentro do meu impuro coração. A verdade foge-me à consciência, o espelho fulgura desolado e, nele, ressurge minha sombra longínqua a esmolar atenção. Em sua moldura azinhavrada, reconheço a nudez do meu olhar destruído. No bronze polido de sua superfície, o assombro me faz companhia serena, sem formalismos ou perdões. A ignorância turva-me, então, em espirais.
Conta-me o espelho, através de pálidas brumas, os segredos do devir e da eterna mutabilidade dos seres. Agarro-me a isso e perpetuo minha covardia.
Há dias em que o espelho emudece e clama abatido pela purificação dos meus dias. Sorrio e, finalmente, sei quem eu sou!

30 de março de 2005

Alvíssaras

O Tiago Mendes voltou! E está aqui!

Doce aprendizado

(Para Cadu)

Com a língua, conheci-lhe o corpo e avaliei seu gosto. Com a língua, então, apreciei-lhe as qualidades e reconheci-lhe os méritos, sinais visíveis da manifestação do Verbo. Em seu corpo, se espalhavam letras de alfabeto de uma tribo sem vogais, como regidas pelas fases da lua. E esse alfabeto ensinou-me a invocar o alimento, a luz e o remédio, tudo o que o seu nome contém, enfim!

Crônica dos dias

A inversão da compostura régia, da majestade e das sagradas cerimônias resultou em atavios e atitudes burlescas, irreverência e ausência de qualquer autoridade. E, então, o rei se tornou palhaço!

29 de março de 2005

Atestado

Sou homem de muita sorte!

Magias, pequenas magias

Tornei-me livre ao ganhar um livro!

Na vida, transformei dores em cores.

Temo o inverno. Prefiro o inverso.

De tanto viver, cansei. Preferia dizer: de tanto viver, cantei!

28 de março de 2005

Envelhecer - 20

O medo pode prejudicar mais do que a própria situação temida, Asyd!