Excerpta ex umbra, Valinia

(aos incapazes de se fazer generosos para com as próprias contradições)

Há dias em que falo com o espelho, e ele me conta dos movimentos do céu e de suas estrelas, enquanto arrisco olhar o meu oceano tumultuoso de loucura.
Considerações e especulações ordenam e recriam o conhecimento sobre mim. No embaçado espelho, reflito sobre o que existe dentro do meu impuro coração. A verdade foge-me à consciência, o espelho fulgura desolado e, nele, ressurge minha sombra longínqua a esmolar atenção. Em sua moldura azinhavrada, reconheço a nudez do meu olhar destruído. No bronze polido de sua superfície, o assombro me faz companhia serena, sem formalismos ou perdões. A ignorância turva-me, então, em espirais.
Conta-me o espelho, através de pálidas brumas, os segredos do devir e da eterna mutabilidade dos seres. Agarro-me a isso e perpetuo minha covardia.
Há dias em que o espelho emudece e clama abatido pela purificação dos meus dias. Sorrio e, finalmente, sei quem eu sou!

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