Iluminura

Evilásio ensandecia, silenciado pelos êrmos, com os olhos mergulhados em muitas fumaças. Nada que falasse da simpatia do peão com sorriso largo das comitivas de Zé Martino.
Diziam ser filho de gente boa, roubado adrede por parteira cigana dos peitos da mãe. Contavam também do respeito que lhe tinha a bugrada beiçuda nos serviços para o Coronel.
Quando o avistei, já estava carcomido de melancolia, dessas que lembram o violão tangido em noite de chuva. Vagueava com o sol a pino à beira de pirambeira, perto do tijuco, com a mandíbula retesada. Estacou a marcha e me olhou indiferente. Respeitei-lhe a distância e, num repente, lhe ofereci água nova e limpa, sem grande razão. E, logo, tudo revirou nesse perdido do cerrado.
A voz dos bichos no vargedo sumiu, e massas de nuvens cobriram nossa companhia sem testemunhas. Evilásio adiantou o passo para dentro do tijuco e se ajoelhou com as mãos postas. Errático, o pensamento confundiu minha certeza de jeitos. E, nesse sem-jeito, entreguei meu coração aos pés e caminhei certeiro, influído quem sabe pela cena antiga no tempo e nova para a minha história.
Evilásio manso, cabeça rebaixada e olhos fechados, permanecia em silenciosa genuflexão. A verdade da cena só se fazia pelo cheiro do suor a nos entrecontagiar. Despejei-lhe a água, de fonte nova e já ofertada, sobre a cabeça, primeiro a modo de padre, depois como chuva de maná. Tudo era silêncio, menos o coração. E, à bem-aventurança dos silêncios, se seguiu o sacolejado riso de Evilásio e, pelo natural, o vôo do bando de marrecas do cerrado a quebrar a modorra do capim.
Evilásio voltou a estar com o sorriso largo nas comitivas de Zé Martino, casou-se e nos tornamos compadres.
À força da precisão, me transformei num Batista a acolher outras gentes naquele arremedo de Jordão. Desta maneira.

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