Arquivo de março de 2005

Não me deixe, como na canção

quarta-feira, 23 de março de 2005

(para Jamille S.)

Esqueça! Tudo pode ser esquecido, até os desentendimentos e os porquês fatais para a felicidade! Eu lhe darei gotas de chuva de um lugar onde não chove, e revolverei a terra, mesmo após morrer, para cobrir seu corpo de ouro e de brilho, e criarei um reino onde o amor será rei, o amor será lei e você reinará, e criarei palavras sem nexo que só você compreenderá, e lhe contarei histórias de amores impossíveis. Até o fogo pode renascer de um vulcão extinto e, mesmo em terra queimada, o trigo florescer mais que num melhor Abril. Eu não vou mais chorar e, calado e escondido, lá ficarei para vê-la dançar e sorrir, e escutá-la cantar e rir. Deixe-me ser a sombra de sua sombra, a sombra de sua mão, a sombra de seu cão. Não me deixe!

O Mundo Perfeito, ou Como o Mundo Deveria Ser

terça-feira, 22 de março de 2005

Do que ainda me lembro

terça-feira, 22 de março de 2005

(para quem eu gosto muito)

Em minhas caminhadas, ouvi diferentes mestres de rara expressão. Um deles explicou-me, docemente, que os pensamentos são como criaturas voadoras do D’us: um pombo, um rouxinol ou um gavião. E, como pensamentos-pássaros, precisam de tratos específicos em nossa cabeça-gaiola. Ali não devem se misturar para não gerar confusão! Quando muito podem conviver pensamentos-pássaros de afinidades próximas. Assim, eles vão nos ajudar a ler a vida sem sobressaltos. E também vão imprimir um jeito especial de expressar as emoções pela vida. Sim, pois os sentimentos, explicou-me o mestre, são o vôo dos pensamentos-pássaros. De um pensamento-rouxinol resulta um sentimento-rouxinol a voar. E vai ser diferente de um pensamento-gavião. Simples assim. A gente sente a vida do jeito do sentir-pássaro abrigado na gaiola-cabeça. E, como se não bastasse, dizia o honrado mestre, um pensamento-rouxinol, por exemplo, gera um sentimento-rouxinol e só pode determinar um querer-rouxinol, e não um querer-gavião! Nossas mãos executam o solicitado pelo sentir, segundo a sua natureza. E o querer não se conjuga no imperativo! Simples assim, de novo. Decorre um querer ajustado ao sentir, que expressa o pensar. Decorre um querer doce, comedido, ajustado ao pensar e ao sentir. Entendeu? É simples assim, enfatizou o saudoso mestre antes de repousar junto às nuvens.

A arte de sonhar

segunda-feira, 21 de março de 2005

A Primavera começou. No hemisfério norte! Eu queria estar na Dinamarca. Só para ficar olhando pássaros. Sim, pássaros!

Die Wanderer

segunda-feira, 21 de março de 2005

Por caminhos idênticos, nos sentamos lado a lado, em um breve e necessário tempo, para expor o pulso de nossas vidas.
No silêncio da respiração cadenciada, você orquestrava prelúdio para um cortejo de confidências. Seu silêncio era presságio de grandeza e majestade de tudo o que nos tocava, como a acolher o divino em parcimonioso comedimento.
Eu, condenado pela tagarelice e anarquia negligente de gestos, me tornara essa figura emudecida: na recusa de desabafos, eu permanecia obliterado. Em verdade, eu testemunhava o acantoado ocultamento da desolação de tudo.
Sentados, lado a lado, ali permanecemos a entoar melodias díspares, tão nossas.

Ei-la

domingo, 20 de março de 2005

(para C.N.)

Em sonhos, você me exigiu prova de amor! Despertei e lhe escrevo este bilhete. E, agora, volto a dormir.

Uso e costume (work in progress)

domingo, 20 de março de 2005

Das evocações do percurso, o ato de escrever é das mais antigas e, nele, encontro paradoxos exemplares: furtou-me e acrescentou, concedeu-me e usurpou.
Na infância, foi treino incipiente de definição do ser em canções divertidas. Na adolescência, fomentou crises narcísicas e minorou incertezas do estar. Na maturidade, se propôs resgate virulento de coerências. Na velhice, é ofício de solidão e tributo à incapacidade de desistir do desassossego, como sempre.

O apelo da terra

sábado, 19 de março de 2005

Asfalto fora e aí vamos nós, clap clap clap, passos confiantes de gente urbanizada (que se imagina urbana), de pele (indiferente, tratada) onde roçam a lycra e o poliester. Que espreita pelos vidros sem qualquer dedada e vê a realidade através do ajax. Nesse preciso instante, bactérias legionárias fazem festins nos open spaces, por entre monitores e divisórias de fórmica.

Gente que salta de caixa em caixa, grandes, pequenas, com rodas, janelas (ou sem elas), varandas com vasos onde se espevitam verdes raquíticos, condutas do lixo e telhados, muitos telhados que tapam o céu, cuidado com o sol que está doentio! (baixamos persianas, pálpebras).

Gente embrulhada no conforto quentinho dos circuitos eléctricos, numa existência limpa, asséptica e quase translúcida, aos ziguezagues por entre matéria inorgânica, produzida em série (sem cheiro definido) e que lhes ofusca a memória animal.

Na cidade, esquecemos que um dia já fomos amebas nervosas, girinos em fuga de um mar sulfuroso, patas no chão, pelos no corpo e rasgão na carne, enquanto o sangue nos cavalga o corpo (e relincha, enfreado) e se dilui em garrafas de água mineral, natural e sem gás (a pureza da fonte, onde quer que isso seja), o vidro no vidrão.

Quando a terra se impõe e nos reclama por fim, tememos insectos e enfados, pólens mortíferos, choques alérgicos de desfecho anafilático (é tudo apenas questão de minutos).

Mas sem darmos por isso pomo-nos a jeito para o açoite do vento e afagamos cães sujos que pingam carraças.

E começamos a descalçar a cidade, como uma luva apertada: delicada mas firmemente. Mergulhamos sem pensar a mão na terra escura, partículas lamacentas entranham-se-nos na unhas e uma paz muito antiga (mais antiga que os tempos) apodera-se de nós.

É então que percebemos que, a cada vez que comemos, fodemos, matamos ou lambemos as crias, estamos a enterrar por uma vez mais as mãos na terra. Que teimamos em renegar mas que, a cada torrão que apertamos, se desfaz, libertando qualquer coisa de primordial, visceral e belo, que nos sussurra que foi ali que tudo começou.

(transcrito, com autorização, do blog português Controversa maresia)

1/3

sábado, 19 de março de 2005

Desde Angoulême não me sentia tão possuída por esse Adônis imprevisível, impulsivo e impossível, a viver tempos inebriantes que jamais esperam controle. Agora a vida explodia de solicitações, e eu, incansável, não conseguia lhe dar atenção. Contrariamente a um exercício de magia, me coloquei em alerta. Ou melhor tentei. Então, vinte minutos depois, ele me agarrou. E suspeitei infidelidades e sordidez a alimentar repulsa. Nesse quase outono, os pés descalços geraram as incertezas para engasgar no sábado fatídico. Apesar do fascínio pelo combate, deixei-me abandonar desde o primeiro instante.

2/3

sábado, 19 de março de 2005

Tempos inebriantes jamais esperam controle: justifiquei-me à espera de absolvição. Queria apenas um banho para me livrar da infidelidade e da sordidez que pudesse alimentar a repulsa, nesse quase outono. Mergulhei na banheira e, em devaneios, refiz o exercício de magia.
Eu o vi, por acaso, na entrada de Angoulême. Então, ele me agarrou e me deixei abandonar desde o primeiro instante. Confirmei na cama do hotel barato o que já pressentira: um Adônis imprevisível, impulsivo e impossível nas artes do sexo. Seus pés descalços cobriram meu corpo de carícias.
Vinte minutos depois, saí da banheira sem nenhum resquício de culpa para me engasgar no sábado. O espelho revelou-me a nudez tranquila.