Pelas bandas de Ramalho

O mal se assucede só se apontar com os dedos o arco-das-sete-cores. Aí o orvalho do céu escorrega pela mão e irrita as alma.
E Sa Maria, pixaim preso pelos panos, arrastava as alpercatas e se ria com careta destamanho. Já passara dos cem, diziam os simplórios de perto do galinheiro. Comia de tudo, segredavam. Menos porco.
É bicho sujo que quando dá meia-noite vira coisa ruim.E ninguém lhe tirava o senso.
Mas como eu dizia ainda há pouco, Tio Laureano, o doente, ficou tão aliviado que desandou a chorar.
Ela encomendou emplastro de folha de fumo com azeite-doce nas feridas, e que as janelas do quarto permanecessem fechadas por três dias.
Nunca temi Sa Maria, mas não abusava.
Com a faca nova em folha, cortei o fumo e já me preparava para entrar na casa, quando vi Sa Maria lavando as mãos com água de cidreira junto à roça de milho novo.
‘cê sabe rezá a das Chagas?, perguntou sem nervoso, como querendo afirmar.
Sei, respondi com voz humilde e trêmula, feito menino na procissão do Senhor morto.
Pois pode começá!, sussurou baixinho.
Meu coração disparou. Sa Maria se embrenhou no escuro do mato, e eu não conseguia nem andar. A lama comia os meus pés. Só o coração ribombava. O resto era só comichão.
Sa Maria retornou do mato com um punhado de ervas na mão direita e disparou.
Hoje é lua cheia.
Meus pêlos eriçaram. Senti vontade de chorar. E ela continou:
A lua cheia dissolve a pesadez das alma, e faz os home sonambulá. É o tempo de desfazê os feitiço.
Sem tempo para perder, a primeira passada me doeu, como se os gravetos, qual espinhos, entrassem nos pés.
Enquanto resmungava um salmo, Sa Maria enfiou a mão esquerda no oco do pau. Mal me aprumei, ela estendeu a outra, feito casca enrugada de resina, em minha direção e ordenou:
Vamo esconjurá agorinha. Com a Ave Maria!
A passarada silenciou de uma só vez. Até o vento esqueceu esse lugar.
Em uníssono com as fúrias, bradei sete vezes:
Em nome de São Pantaleão e dos Santos Meninos, contra o Anjo-das-Maldades e dos seus companheiros, a missão:
Guarda uma arruda, corta imbira, raspa alma. Quem uiva ironias, nunca terá opulências!

Despreguei do chão imediatamente, e as gargalhadas de Sa Maria ecoaram pelo grotão.
Hoje, trinta anos depois, enterrei Tio Laureano. Morreu de velhice.
Sa Maria continua sem comer carne de porco e me ensina outras rezas, outros esconjuros.

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