Sabores distantes

O unicórnio morava nas gavetas da máquina de costura. Às vezes, deixava rastros de madrepérola, sob a forma de botões, ou linhas de cores desbotadas como se trazidas do deserto. Sentia-lhe o cheiro amadeirado e o reconhecia amargo como remédio para dores. Trocávamos silêncios e respeitávamos a vez: durante o dia, eu podia vasculhar os seus domínios. À noite, seu império se fazia definitivo, apesar dos ruídos inconfundíveis (ao menos para mim). Quando cresci, perdi-lhe a companhia, exceto ao admirar as costuras em desalinho dos farrapos com que me visto.

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