Arquivo de abril de 2005

Vãos de meu ser

sábado, 30 de abril de 2005

(da série Rascunhos)

Da alma, declamar emoções que não escolhem o que comer: singular ofício de escrita.
Farejar entrelinhas, escolher palavras, dissimular intenções (tornei-me andarilho em alheias lembranças). E letras, que desconheciam a luz, se aninham em parágrafos erguidos a cada passo com argamassa de silêncios.
Tornar-se, enfim, refém de olhos a espreitar os rastros de meus dedos.

Pequena canção

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Ouvir
a tua envolvente presença
degustar
a intimidade de teus olhos
tatear
o vórtice de teus cheiros

Draw a pig

quinta-feira, 28 de abril de 2005
Piggies

Como você desenha um porco? Isso pode dizer como você está. E, ainda, seu porco fica morando com porquinhos vindos do mundo todo. Experimente, em http://drawapig.desktopcreatures.com/ .

Autumn landscape

quinta-feira, 28 de abril de 2005

cigarro apagado
a brasa em segredo

sorriso afastado
abraço-me em segredo

vento
canta
incansável

Flexionar

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Negociar tempos, enxugar vida, programar viço, negociar vida, enxugar viço, programar tempos, negociar viço, enxugar tempos, programar vida, enlouquecer à beça.

Desconsolo

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Roubaram-me palavras.
Desolado, busquei-as em vão.
Resigno-me a pensar: voltarão.

Para onde vão as meias desaparecidas?

quinta-feira, 28 de abril de 2005

I – Delírio

Ficamos com uma das meias do par e não encontramos a outra, sei como é. Essa meia sem par acaba sendo ignorada, a guardamos por muito tempo com as outras até o dia em que resolvemos fazer algo com ela. Essas meias desprezadas se perdem mesmo. Mas as primeiras, as primeiras meias do par que desaparecem, essas tem um destino certo e muito bem planejado. Isso quando não perdemos logo o par inteiro de uma vez, pode até acontecer. O destino dessas meias é voltarem às lojas para serem vendidas novamente como meias novas. Isso mesmo, esta sua última meia desaparecida já pode estar à venda por aí, junto com outra meia, do mesmo modelo e tamanho que a sua, perdida por outra pessoa. Vou explicar: as empresas que fabricam meias são dos mesmos proprietários das empresas que fabricam máquinas de lavar. Afinal, quando você perde as meias? Quando vai lavá-las, é claro! Continuando a explicação: há teletransportadores embutidos nas máquinas de lavar capazes de transportar suas meias para galpões secretos localizados nas fábricas de meias. As meias são reparadas, os pares reagrupados e vendidos novamente, com um custo muito menor em relação a se fabricar meias realmente novas.

II – Ilusão

Ontem mesmo eu vi uma das minhas meias desaparecer dentro da máquina de lavar. Eu fiquei observando toda a lavagem, esperando o momento, e aconteceu! Depois de uma das voltas do tambor, na etapa de enxague, — zap! — sumiu a meia!

III – Alucinação

Quando a meia sumiu, uma luz azul começou a surgir atrás da máquina. A luz foi ficando mais intensa e parecia pulsar. Olhei atrás da máquina e vi um túnel luminoso de vários tons de azul que girava. Minha meia flutuava através dele. No fim do túnel, que parecia quase sem fim, muito ao longe, eu conseguia ver uma parte do galpão para onde minha meia estava indo. Lá eu via muitas pessoas, todas com o mesmo uniforme, uma roupa grande de um amarelo bem claro, e todas usavam capacetes e luvas.

IV – De volta ao delírio

E é por isso que existem esses saquinhos para você colocar exatamente as peças pequenas quando for lavá-las na máquina. Eu inventei isso. São feitos de um material especial que não é atraido pelo teletransportador. Mas, provavelmente, os empresários do ramo já devem estar desenvolvendo teletransportadores mais modernos. Esses empresários são espertos. E eu serei mais esperto que eles!

Pleonasmo

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Escrever-lhe uma carta, foi o que pensei. Lembrei-me, porém, de suas tatuagens e desisti.
Afinal, você já se tornara o seu próprio texto.

Papel de seda

quarta-feira, 27 de abril de 2005

(da série Poética final)

brindar
brilhar
brandir
bramir
brigar
britar

brincar

brecar

Arpão

quarta-feira, 27 de abril de 2005

(da série Poética)

colar-se à sina
da vida
à lavra livre

calar-se tanto
ao pranto
como ao canto

rolar-se à solta no perto
ou ralar-se no assalto certo

calar-se ao credo
do que virá.