Arquivo de abril de 2005

Abrir os olhos

terça-feira, 26 de abril de 2005

(da série Poética)

Basta que o frio acorde, que o outono grite e
que você volte

Basta que o frio volte, que o outono acorde e
que você grite

Basta que o frio grite, que o outono volte e
que você acorde

Eu acordarei da morte, voltarei do longe e gritarei feliz.

Como eu vou?

terça-feira, 26 de abril de 2005

Na madrugada, abro o armário em busca de algum manuscrito. A escuridão me envolve e, ao mergulhar minha mão, o tato é meu condutor. Após alguns minutos (nem imagino quanto), aprendi que a vida tem profundidade e contornos.
Em tempo: não localizei o manuscrito.

L’enfer c’est les autres

terça-feira, 26 de abril de 2005

Meu vizinho só ouve, no último volume, aquelas musiquinhas cheias de poesia que a Bahia criativamente lança a cada Carnaval, Micareta e o diabo-a-quatro! Ele me lembra da falta de harmonia em mim mesmo!

Obituário

segunda-feira, 25 de abril de 2005

O caminho estava traçado e se impôs como estilo pessoal. Se a consciência profunda foi tocada, nunca o saberemos. O fato é que o parentesco distante com o premiado literato o impulsionou para as letras, para o ofício da escrita. A convivência íntima com as palavras, porém, lhe foi desafiadora e estéril. Sem amá-las, as escolhia pela aparência, como queijos na prateleira de um supermercado. Selecionadas, salpicava-as pelas páginas, esperando que, no conjunto, alcançassem resultados e efeitos. E isto sem falar nos títulos das composições: verdadeiras sínteses do absurdo!
Morreu como viveu: previsível, com desbotado apetite e dificuldades respiratórias!

Esboço

domingo, 24 de abril de 2005

Os instantes em que escrevo essa nota são de matéria arrebatada (embora desalentada) e não fluente. Fomos muitos a celebrar: os que aqui estamos e os que já estiveram. Um coração saltimbanco e uma esquiva nostalgia sustentam meu discurso emprestado. Agonizam umas palavras e, de resto, a inutilidade em ajeitar as demais. Perdi o vocabulário poético (jamais o reconheço), e a alma se arruma para um telefonema que não virá: antecipo excusas e me agarro a elas, antes de perdê-las. Sem palavras sensatas, como a desafiar ordenamentos, perambulo entre episódios quaisquer. A canção dizia “Faz três noites que eu não durmo”, e a rápida tragédia sempre me divertiu (adormecia placidamente talvez por ter ficado três noites sem dormir!). Agora, o desencanto desuniu palavras. O conto de fadas foi substituído por um de horror e, dele, resulta angústia (passei a me recordar do dia de minha saída das terras do Egito). Minhas provisões eram apenas palavras. Escrevê-las, hoje, é quase sempre estranho, não obstante a beleza da essência, e ainda que tenham decidido repartir a sabedoria antes de mim. Discorro em profundidade e me avisto venturoso. Que os meus ouvidos ouçam o que minha mão escreveu!

Conjugar somente

sábado, 23 de abril de 2005

Rascunhar bilhetes, soletrar distâncias, antecipar lembranças, despertar regras, rascunhar distâncias, soletrar lembranças, antecipar regras, despertar bilhetes, rascunhar lembranças, soletrar regras, antecipar bilhetes, despertar distâncias, rascunhar regras, soletrar bilhetes, antecipar distâncias, despertar lembranças.

Alcanzias (reprint)

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Ao olhar minha sombra em repouso, apressei-me em observá-la. Era uma caixa tão antiga, que se desfazia como papel, a tristonha, e abraçava palavras distantes e solitárias. Mirei-as sem constrangê-las. As palavras pediam calma e luz, como os homens do meu tempo. Meus dedos ásperos e quebradiços obedeceram, e elas se soltaram desconfortáveis e, na palidez, sorriram. Depois ensaiaram vôo de borboleta (eu as queria imortais) e se aninharam por aí em busca de um sentido real.


Nem o frio empalideceu-me o gesto. Tomei o conjunto de cartas com arrebatamento e as distribui sobre a mesa de trabalho. Os envelopes desenharam um tempo. Os sobrescritos inscreveram paisagens. Eram notícias da vida, eram surpresas do antes. Diante de meus olhos, as cartas se transformaram em hortos silenciosos. O frio queimava os dedos, as cartas aqueciam a memória. Cada envelope desfiava música, e as harmonias se orquestravam no tempo. Reverente, abri os envelopes e depositei as missivas num outro canto da mesa, que se invadiu de luz. Meus olhos aninharam as palavras, e o dia tomou o sabor do aniz.


Em tuas mãos, palavras são veludos de singular beleza: brilham e se recolhem dignas ao toque. Em meus lábios, palavras adormecem qual insípida água morna a dissipar calor. Acolho o silêncio (acredito-me respeitoso), enquanto tramo falas como aranha em seu ofício. Enregelado, ainda espero o teu retorno.

À guisa de alcanzia – II

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Alinhadas, as gavetas miravam o comum em meus gestos descuidados.
Gavetas, porém, um dia se abrem (talvez guardem a memória de, como árvores, se abrirem ao sol!). Estavam cheias de palavras, verdadeiros refúgios para o meu alfabeto de menino. Eram antigas, e me assustaram (pudesse eu dizer o quanto a distância se fez dor!).
Espalharam-se entre os meus dedos e, nas palmas das mãos, sobraram poucas, o suficiente para escrever esta nota. As demais ensinavam a me calar.

Verdade – 2

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Amigos fiéis dizem não conhecer ninguém mais devotado do que eu. Falam também de minha caridade: distribuo esmolas de mão aberta. Falam, ainda, de meu doce temperamento e de minha sabedoria. Só não falam sobre a minha modéstia!

Verdade – 1

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Eu sei que sou um tolo. Porém, pelo simples fato de me saber tolo, com toda certeza não o sou. Mas se eu mesmo percebo não ser tolo e fico dando atenção às acusações de que sou tolo, então devo ser tolo mesmo! Que melhor seja a sua sorte, leitor.