Ao olhar minha sombra em repouso, apressei-me em observá-la. Era uma caixa tão antiga, que se desfazia como papel, a tristonha, e abraçava palavras distantes e solitárias. Mirei-as sem constrangê-las. As palavras pediam calma e luz, como os homens do meu tempo. Meus dedos ásperos e quebradiços obedeceram, e elas se soltaram desconfortáveis e, na palidez, sorriram. Depois ensaiaram vôo de borboleta (eu as queria imortais) e se aninharam por aí em busca de um sentido real.
Nem o frio empalideceu-me o gesto. Tomei o conjunto de cartas com arrebatamento e as distribui sobre a mesa de trabalho. Os envelopes desenharam um tempo. Os sobrescritos inscreveram paisagens. Eram notícias da vida, eram surpresas do antes. Diante de meus olhos, as cartas se transformaram em hortos silenciosos. O frio queimava os dedos, as cartas aqueciam a memória. Cada envelope desfiava música, e as harmonias se orquestravam no tempo. Reverente, abri os envelopes e depositei as missivas num outro canto da mesa, que se invadiu de luz. Meus olhos aninharam as palavras, e o dia tomou o sabor do aniz.
Em tuas mãos, palavras são veludos de singular beleza: brilham e se recolhem dignas ao toque. Em meus lábios, palavras adormecem qual insípida água morna a dissipar calor. Acolho o silêncio (acredito-me respeitoso), enquanto tramo falas como aranha em seu ofício. Enregelado, ainda espero o teu retorno.