Arquivo de maio de 2005

DoodleBug III

terça-feira, 31 de maio de 2005
Scream

Corpo em marcha

domingo, 29 de maio de 2005

Como Foucault, busquei legibilidade na escrita para afastar o riso constrangedor das outras crianças. Desnecessário dizer: não o consegui e me decepcionei. Refugiei-me, assim, durante anos, no silêncio para traduzir a vida. De início, as palavras ficaram por ali, silenciosas como inconsistentes marionetes à espera de meus dedos (saberiam expressar o que jamais ousaria dizer sem máscaras?). Depois, observei-as com cuidados e resgatei insuspeitos e acolhedores elementos da paisagem ao redor. Logo, as palavras se tornaram a secreta morada de meus dias juvenis. Pouco a pouco, descobri-lhes a forma, a textura, os sabores com o mesmo prazer das proibidas facas da infância. Nesse tempo, tomei-as por cinzel e me iniciei no ofício. De cinzel escultórico à faca foi um pulo. Hoje, minha caneta é uma poderosa faca com que fatio, retalho, corto e separo a natureza dos seres e das coisas, por firme e cruel experimentação.
Tempos virão em que ela, como tesoura de Átropos, escreverá, de modo súbito, as palavras de um desprezível epitáfio, o meu.

Abandono(s)

domingo, 29 de maio de 2005

Enquanto escrevia, um rato se aproximou hesitante. O improvável se manifestava com olhos brilhantes e corcova aveludada. Certa vez, lá pelos idos de 90, também peguei carona em caminhão de transporte. Do motorista quase não me lembro. Só me recordo de que chorava a ausência da esposa. Ela morrera de parto. A criança, no entanto, se salvara. O que não lhe causara prazer. Ele dizia preferir a esposa ao bebê. Este fora deixado para a cunhada criar. Quanto mais avançávamos pelas estradas, mais lágrimas lhe escorriam pela face. O rato continuava parado, encarando-me desolado, solitário. Sentia-me impotente. Uma criança privada de contato com o pai, e a mãe morta por causa de um nascimento. Nos olhos miúdos, a solidão do rato se fazia ainda mais dolorida. Tomei uma fatia de pão e a aproximei de seu focinho. No primeiro instante, ele se afastou. Depois, avançou e começou a comer. Na solidão da estrada, o caminhoneiro tinha muito a prantear a saudade da esposa. Quando dei por mim, o rato partira. Desde então, luto com dificuldade para escrever. Meus olhos insistem em permanecer embaçados.

Perfil – II

sábado, 28 de maio de 2005

sou de porões e do que a sombra cerca
das reticências e de imprevistas viagens
sou de segredos e de mares ocultos
que me falam de rumores de ventos e de sal
sou de antecipar partidas e de retardar chegadas
para me sentir finito e breve
sou de saudades simples

sou de colecionar solidões

Diyas negros

sábado, 28 de maio de 2005

“Los djudios tienen kola”, oyiva de los kristianos en la eskola en mis dias de chikez. I yo kedava yorando. I mi akodro de mi kerida granmama decir: “Ke bivan i ke tengan salud por munchos anyos.”

Vos deseo fortuna a todos. Shalom!

Motivo de ausência – II

sábado, 28 de maio de 2005

Ausentei-me para evocar indagações. Os frascos de vidro colorido se amontoavam pelo balcão amarelecido da sala. Meu pai me segurava pela mão. E pouco conversamos. Uma opção, talvez. A luz tremelicava sobre o balcão. Um vento frio e o cheiro de éter se espalhavam pela sala e pediam urgência, urgência. O terreno movediço da fala argumentava pela loucura, pela dor. O não-dito estimulava a imaginação. Hoje, os frascos de vidro colorido são apenas parte do acervo da memória. Na passagem, a tabuleta dizia: seja breve.

Ao distinto público

quinta-feira, 26 de maio de 2005

O conteúdo deste blog é exclusivamente ficcional, fruto de vivência profissional e literária.
Não raro, leitores podem enxergar, nos textos, referências pessoais muito próximas. Tal fenômeno de identificação entre leitor e textos aponta para a universalidade de temas que pairam sobre a existência humana e que são tratados no blog.

Repito: os textos deste blog são ficcionais e literários.

(Perdoem-me os leitores esclarecidos por esta nota desnecessária!)

Der Vogelfänger (excerto)

quinta-feira, 26 de maio de 2005

(W.A.Mozart – A Flauta Mágica)

Der Vogelfänger bin ich ja,
Stets lustig, heißa, hoppsassa!
Ich Vogelfänger bin bekannt
Bei Alt und Jung im ganzen Land.
Weiß mit dem Locken umzugehn
Und mich auf’s Pfeifen zu verstehn.
Drum kann ich froh und lustig sein,
Denn alle Vögel sind ja mein!

(…)
Ein Netz für Mädchen möchte ich,
Ich fing’ sie dutzendweis für mich!
Dann sperrte ich sie bei mir ein
Und alle Mädchen wären mein.

Wenn alle Mädchen wären mein,
So tauschte ich rasch Zucker ein.
Die, welche mir am liebsten wär,
Der gäb ich gleich den Zucker her.
Und küßte sie mich zärtlich dann,
wär sie mein Weib und ich ihr Mann.
(…)

Vaidoso e confiante, o passarinheiro se vangloriava por atrair todos os pássaros com sua flauta. Sonhava, ainda, prendê-los como objetos de vaidade, para depois trocar um deles por torrão de açúcar.
Finalmente, daria o açúcar para o pássaro preferido de sua coleção, a quem beijaria e receberia como consorte.

P.S.: sinto-me como o pássaro que foi trocado pelo açúcar!

Jamille S.

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Expulsei métrica
Violei rimas
Suprimi tempos

Pulverizei a inspiração

No papel
aqui
apenas você

A poesia agora é você

O poeta tecelão

quarta-feira, 25 de maio de 2005

(para o Til)

O retraído poeta, por tarefa, tecia com palavras e sonhava vulgaridades. Noite e dia, a rabiscar, a traçar e a esboçar o mapa do tempo da liberdade. E, culpado, consertava palavras como a costureira ao pano. E, refinado, concertava palavras como o flautista ao hino. Noite e dia, a mão imperfeita teimava em buscar o perfeito (branco sobre branco) de formas com inveja do D’us (nem de amor ou pesadelo era o grafite nas folhas, no vento e no lugar). Alcandorado, o poeta tecia, preso à dor e ao bocejo, enquanto a vida se esfumava. E, com rimas a lhe sombrear os dedos e a liberdade, lá ficava o poeta tecelão a sofrer teimosamente.