Abandono(s)
Enquanto escrevia, um rato se aproximou hesitante. O improvável se manifestava com olhos brilhantes e corcova aveludada. Certa vez, lá pelos idos de 90, também peguei carona em caminhão de transporte. Do motorista quase não me lembro. Só me recordo de que chorava a ausência da esposa. Ela morrera de parto. A criança, no entanto, se salvara. O que não lhe causara prazer. Ele dizia preferir a esposa ao bebê. Este fora deixado para a cunhada criar. Quanto mais avançávamos pelas estradas, mais lágrimas lhe escorriam pela face. O rato continuava parado, encarando-me desolado, solitário. Sentia-me impotente. Uma criança privada de contato com o pai, e a mãe morta por causa de um nascimento. Nos olhos miúdos, a solidão do rato se fazia ainda mais dolorida. Tomei uma fatia de pão e a aproximei de seu focinho. No primeiro instante, ele se afastou. Depois, avançou e começou a comer. Na solidão da estrada, o caminhoneiro tinha muito a prantear a saudade da esposa. Quando dei por mim, o rato partira. Desde então, luto com dificuldade para escrever. Meus olhos insistem em permanecer embaçados.