O poeta tecelão
(para o Til)
O retraído poeta, por tarefa, tecia com palavras e sonhava vulgaridades. Noite e dia, a rabiscar, a traçar e a esboçar o mapa do tempo da liberdade. E, culpado, consertava palavras como a costureira ao pano. E, refinado, concertava palavras como o flautista ao hino. Noite e dia, a mão imperfeita teimava em buscar o perfeito (branco sobre branco) de formas com inveja do D’us (nem de amor ou pesadelo era o grafite nas folhas, no vento e no lugar). Alcandorado, o poeta tecia, preso à dor e ao bocejo, enquanto a vida se esfumava. E, com rimas a lhe sombrear os dedos e a liberdade, lá ficava o poeta tecelão a sofrer teimosamente.