Resposta ao leitor

W., reconheço-lhe o genuíno interesse sobre os caminhos do processo criativo na arte. É-me difícil responder-lhe a indagação. No geral, o cotidiano se rege pelo utilitarismo e pela vontade. Por tal, já enfrentamos os limites da catástrofe resultantes da manipulação do mundo em sua totalidade. Urge, pois, uma mudança da mentalidade individual. O poeta, para criar, precisa transformar o seu querer. Como? Purificando sua vida de pensamentos: atentar-se às classes de palavras, às frases e suas composições e à extensão dos conceitos, ângulos privilegiados pelo olhar, com isenção e rigor contínuos, além de viver e compreender o seu presente. Tarefa bastante exaustiva, concorda? Imprescindível, porém, na formação do artista. Só mais adiante, ele poderá se debruçar com delicadeza sobre a variedade de sentimentos, exercendo o chamado sentir reflexivo. Por fim, com a atenção desperta, o poeta poderá exercer uma vontade doce, a partir das, agora despertas, forças da consciência. Essa vontade doce, a que me referi, é uma vontade invertida, entregue ao mundo, e que se origina da atenção e do amor. É a mesma forma de vontade de que se vale a criança para aprender a falar e a descobrir a vida.
Transcrevo, a seguir, um antigo poema para sua apreciação e desejo-lhe boa sorte.

Assim nasce a solidão

até o raio
se entrega às nuvens
para clarear o céu

e a chuva
ao solo
para verdejar o campo

a displicência resseca o olhar

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