(da série Contos desmerecidos)
De início, eram pequenas manchas na testa, e eu pensei: “É coisa de verão. O calor do vento e as idéias atrapalhadas são fonte de dor para quem gosta de vida mansa”. Porém, o verão acabou, e as manchas na testa continuaram e a elas se somaram pequenas tumorações com aparência de espinhas juvenis. Em casa, disseram com insistência que eu deveria procurar benzedeira. “E eu lá sou de acreditar nessas besteiras!”, gritei com dose de sarcasmo. “Nessas horas”, pensei, “prefiro esperar por um sonhor revelador!”. Desde muito jovem acreditava no poder dos sonhos. Lembro-me, até, de revelações constrangedoras e não menos cristalinas trazidas pelos sonhos.
Estava perto da fonte nova, quando vi o padre agachado perto de uma tina, se lavando. Assustei-me. Jamais vira um homem santo, a céu aberto, tomando banho. Desorientado, imaginei cobri-lo para reduzir-lhe a vergonha, mas muita gente já estava ao redor dele. E riam sem malícia, até que Josenilda se aproximou e o envolveu numa toalha do altar. Assustado, pensei contar em confissão antes do feriado. Não deu tempo: o padre e Josenilda fugiram da cidade para assombro das beatas e do povoado. Até hoje não se tem padre para rezar missa na capela.
Sem o sonho ansiado, preocupava-me pelas manhãs ao ver o travesseiro se cobrir de miúdas manchas azuladas. Das tumorações de minha testa, um líquido azulado escorria durante as noites. Comecei, então, a lavar as fronhas para evitar comentários das pessoas de casa. Esta atitude foi recebida com estranheza, e os comentários se tornaram ainda mais disparatados. Renunciei pensar neles. Durante o outono, os tumores da testa e as gotas do líquido azulado preenchiam os meus dias e as minhas noites confusas. Sem sonhar, pensava que Ele poderia me poupar daquilo! Mas, nada. Insistentes pensamentos sobre a necessidade de escutar a voz do vento eram a única coisa a se aninhar em minha cabeça. Ficava cismando na janela, até que aconteceu. No final de uma tarde gelada, o vento falou: “Reconhece a vastidão azul e aceita o mistério!”. Aturdido, pulei para a cama e adormeci profundamente. No dia seguinte, a surpresa: os tumores haviam desaparecido e não havia uma só mancha azulada na fronha do travesseiro. Estava curado, pensei.
Assim que o inverno chegou, nova surpresa. Meu peito se cobriu de pêlos ruivos, insistentemente ruivos. Após o banho, não havia como disfarçar: o banheiro se enchia deles. Os lençóis, agora, se cobriam por essa lanugem avermelhada pelas manhãs, e eu varria o quarto para evitar comentários. Mas não havia como. O assunto no café da manhã era insistente: deveria procurar o posto médico da vila. Meu único irmão me oferecia companhia e até a querida avó falava com doçura que chegara a hora de não confundir ainda mais a família com aquela estranha história. Presenteou-me, por fim, com uma estampa do Sagrado Coração e me pediu para guardá-la. Sem sonhar, nem ouvir mensagem no vento, esperei até o fim de junho para tomar alguma decisão. Até que, numa manhã, pela cama se espalhavam algumas pequenas folhas de papel entre os lençóis. O peito sem lanugem alguma, apenas as folhas de papel que recolhi com assombro. Sentei-me na cama e as ordenei de maneira carinhosa. Nelas, o texto era exemplar e correto: “Abriga o entusiasmo dos inocentes pelos dias que virão!”. Pensei estar enlouquecendo ainda mais. A mensagem estava escrita com tinta vermelha e com letra idêntica à minha. Recolhi os pequenos papéis na gaveta da cômoda, e o silêncio me dominou naquela manhã e nas próximas semanas.
A história já havia caído no esquecimento da família, quando numa manhã de agosto, sentei-me perto do fogão de lenha para me aquecer. Os dias frios teimavam em não partir. As panelas do almoço se revezavam na grelha, e eu continuava ali absorto, sem coragem para me levantar. Passei o dia ali sentado, sem fome, sem coragem para fazer nada e sem afastar os olhos do fogaréu. Era o início de um novo mistério. Passei dias, semanas, sem me alimentar. As pernas não obedeciam ao meu comando, dormentes que estavam. Os familiares pediam para que eu me alimentasse. Nada. Dia e noite permanecia ali sentado, olhando a boca do forno de lenha. O crepitar do fogo alimentava o meu silêncio. Ao meu redor, os conselhos e o pedido de meu pai a dizer que bastava aquilo tudo. Disse-me que sairia para atender alguns fregueses de outras vilas e, quando voltasse em quarenta dias, não aturaria mais aquelas loucuras. O irmão e a avó pareciam evitar olhar em minha direção. Os quarenta dias se extinguiram e meu pai retornou sem que eu tivesse me alimentado ou saído daquela cadeira. Ao adentrar pela cozinha, ele me olhou desolado e pesaroso. Sorri timidamente em sua direção. Meu irmão e a avó choravam à distância. Nesse mesmo instante, um alvoroço tomou conta de minhas pernas. Levantei-me cambaleante e o abracei. O choro do irmão e da avó ecoava pela cozinha, enquanto um bando de pombas adentrava pela janela e, revoando sobre o fogão de lenha, espalhou cinzas sobre nós. Entre emocionados e confusos, acompanhamos a revoada janela afora. A primavera se concluiu com mansidão em nossa casa.
No verão, apossou-me uma vontade doce e imperturbável. Montei negóco de estampas da Santíssima Trindade e, desde então, evito pensar nos mistérios entre os meus passos.