Conter o frágil antes da chegada
Bailar os olhos em simples acalantos
Suspirar palavras na paz de todo o tempo
Impregnar-se em sonhos, em nuvens e desejos
Acolher momentos, o antes e o depois
Iluminar as vestes com mínimas palavras
Dançar ao sol, ao dia e ao instante
Aspergir luz no rosto e junto ao coração
Cantar silêncios de espera por você!
Arquivo de junho de 2005
Laetitia (allegro)
sábado, 11 de junho de 2005Laço
sexta-feira, 10 de junho de 2005Não sou de letra, já disse. Mas queria de pequeno. Nasci no Riachão, na seca. Os da família partiram. Fiquei só. Causa da teimosia do pai, não fez a mãe partir também. Depois, só vida besta. Ia pro mato pegar lenha com o pai. Ajudava a mãe a tirar decoada de barrela para fazer sabão. Vida besta. Gostava mesmo de olhar estrelas com o Pião, o perdigueiro. Até ele lamber minha cara. Aí, brigava com ele. Um dia, o pai falou: “Tá na hora de ir prá escola prá aprender a ser gente, Timóteo!”. E me levou pro Cedro. “Sabe escrever o nome?”, perguntou a dona professora. Dei um riso sem graça, e ela pegou da caneta e escreveu. Da caneta saiu o meu nome! Parecia chuva fina na cara! E ela falou: “Pega, o papel é seu!”. Na casa, só olhava pra ele. Era mais bonito que as estrelas, mais que o Pião. Depois, o pai morreu de emboscada de jagunço, e a mãe me levou embora. De casa em casa, de pequeno, a mãe não vi mais. Quase esqueço do Riachão. Não sou de letra, já disse. Caneta nem tive. ‘Inda hoje, olhando estrelas, ‘tou certo que a dona professora gostava de escrever o meu nome!
Oi-tchau (post pessoal e intransferível): último aviso
quinta-feira, 9 de junho de 2005(para Guacira)
Assunto de hoje: (rufos) o meu aniversário está próximo!
Desde a infância (que já vai longe, muuuito longe! Lírico, né?), este é o período em que me torno verdadeiramente feliz, embora viva num país do carnaval de corrupção, (des)governado por malta de vagabundos (mas isto é um outro problema). Insisto em querer ser feliz, apesar de, resignado, agradecer presentes inúteis que jamais pedi ou sonhei e que, obviamente, acabam num bazar de alguma instituição de caridade qualquer, sacumé?
Agora, presentes que me deixariam feliz, já pensei muitos. Por exemplo, pensei em pedir de presente uma espingarda de dois canos, com a respectiva licença para abater neguinho feladaputa que me encaminha emails desnecessários, piadinhas trash, mensagens inspiracionais, powerpoints e outras merdas do gênero, atrapalhando a minha intensa e solitária busca de sobrevivência em paz (Acho que preciso examinar minhas vidas passadas. Em alguma época, devo ter sido político salafrário para hoje tropeçar em tantos desocupados com vocação para me encher o saco e a caixa de correspondência).
Mas, neste ano, tudo vai ser diferente, como o diria o velho rei da juventude (esses títulos de nobreza sempre cheiram ranço, né não?). Sonho com um presente especial para durar até o fim de meus dias. E que, por ganhá-lo, serão extremamente felizes (meiguice encantadora, né mesmo?)!
Quero um presente especialíssimo da Guacira, sim, você mesma, Guacira, ou qualquer outro “nick” que porventura venha a adotar em suas dispensáveis missivas eletrônicas: suma de minha vida, desapareça! Sai de fininho, antes de cometer mais cagadas, pois meus advogados tão louquinhos para exercitar porradas jurídicas, além de ganhar um dinheirinho extra! Este será o mais belo presente para garantir a minha felicidade: distância total de seu bafo maljeitoso! Aliás, aproveita para dedicar o seu intenso amor, brejeirice, inteligência, gratidão e carinho aos seus filhos, noras, netos, ex-sogra, etc., etc., etc. Simples, né? Neste ano, ficarei feliz, muuuito feliz, f-e-l-i-c-i-s-s-i-m-o!
P.S.: Ao respeitável público, meus leitores, leitoras, amigos e amigas, peço desculpas pela nojeira de post, último, espero, na minha vida de blogueiro que tá por um fio! Bye, bye!
Worship: itinerários
quarta-feira, 8 de junho de 2005(ao Cadu Nirelo)
Busco seu corpo entre os lençóis e dele me faço escultor. Alcanço-lhe os cheiros e me preencho de singulares e purpúreas romãs. Refém do belo, por ouvir-lhe a voz, me dissipo nos céus.
No deserto da noite, meu coração aspira pulsar como as estrelas. Ah! essa ausência amarga a preencher meus passos. Aflito, evoco a doçura de seus olhos e eis-me pleno ao murmurar seu nome em gesto e voz.
Detenho-me ao vê-lo passar como pinceladas coloridas a iluminar caminhos. De súbito, cruzo-lhe o olhar, alento-me e, por fim, a vida se desvela.
Aconchego-me em seus braços para melhor ouvir-lhe a canção interior.
Esquadria
terça-feira, 7 de junho de 2005Que a voz expresse a harmonia do cosmo
e ecoe maravilhas aos homens;
que arrebate a torpeza da morte
e estreite encontros,
gestos
e vidas.
E que desejos se distanciem,
e falsas luzes se dissipem.
Sonho vozes a gritar o
inominável.
Anseio por vozes a repetir
Amém!
A vida como arte e como dor
segunda-feira, 6 de junho de 2005(ao Tunico G.)
Quiara (assim estava grafado no cartão de visita!) se esforçava por parecer simples, natural e espontânea. Porém, a roupa extravagante me dizia que ela não gostava de coisas triviais, de gosto popular.
À queima-roupa me disse: “Acima de tudo, não gosto de me passar por pessoa vulgar ou comum. Tenho horror à vulgaridade dos sentimentos comuns. Vejo-me como alguém especial, diferente dos outros”. E arrematou: “As pessoas não apreciam a autêntica beleza da vida”.
Antes que eu pudesse lhe dizer qualquer coisa, desandou a relatar, com nostalgia compulsiva, sua insuportável e difícil infância. Experimentara doloroso abandono e, por isso, nutria raiva contra os pais. Por ausência de fontes de amor, criou-as na fantasia. E afirmou magoada como palhaço trágico, sorrindo através das lágrimas: “As pessoas me acusam de ser excessivamente dramática, mas com isso ferem meus sentimentos que, aliás, são bem diferentes da irritante vulgaridade dos sentimentos comuns!”. Ato contínuo, me disse que só estava ali, pois sabia ser eu pessoa “com algo especial e profundo”!
Olhou-me com firmeza e perguntou ansiosa como se uma ameaça pairasse sobre ela: “Sei que o meu verdadeiro eu vai emergir no futuro, quando for verdadeiramente amada. Por isto, quero saber quando virá o amor, este distante e inalcançável amor que qualquer mulher consegue?”
Pedi-lhe, então, que tirasse uma carta do maço de Tarô, e ela exclamou teatral: “Meu Deus! Você acredita mesmo que uma só carta assim, tão aleatória, poderia me dar alguma resposta? Uma só carta me diria tudo sobre o distante e inalcançável amor? Acho que você não entendeu nada! Sinto-me traída e o odeio!”
Enquanto eu permanecia com o maço de Tarô estendido em sua direção, olhou-me com desprezo e disse: “Sinto vontade de fazer um escândalo, porém não o farei. Saiba, querido, desejar é mais importante que possuir!” Levantou-se e saiu da sala como uma velha criança melancólica à espera de compaixão e de apoio.
Salut, Pierre
domingo, 5 de junho de 2005(para Esther G.)
Há muito não se encontravam. Aliás, nem a ela e nem a nenhuma outra das antigas moradoras da rue Florien.
O bar da praia, embora decadente e ruidoso, foi o que o restara para esse encontro. Enquanto falavam, ele tentou caminhar por suas palavras e se perdeu num areeiro estéril, assombrado, desolador. Ainda tentou buscar a geometria instável das marés no horizonte e a gramatura variável dos cristais de areia aos seus pés para resgatar beleza, qualquer beleza. Nada, nada.
Os ruídos dos clientes do bar, neste entardecer, se preenchiam de determinação inútil e agressiva. Pareciam gritar: somos fortes, mesquinhos, saudáveis e preparados para a noite, como a desdenhar a pujante e expansiva realidade que a vida impõe.
Visivelmente emocionada, ela falava sobre outros conhecidos da rue Florien e, num instante, os olhos se embaçaram, e lágrimas escorriam sem controle. Ele estendeu-lhe a mão de bom grado. Ela se afastou. O sol complacente desaparecia. Ela voltou a falar, e ele ouviu cada um dos já antigos e conhecidos lamentos de saudade. Impaciente, ele acendeu um cigarro e, à preguiçosa tragada, o espaço se tingiu de azul.
Num instante, o vozerio transbordante sumiu. Então, ele apoiou a cabeça sobre o braço e adormeceu com o compasso ritmado do relógio. No céu, estrelas estampavam a palavra adeus. E ele continou a sonhar que se encontravam no bar de praia, embora decadente e ruidoso. E que se perdia em buscar beleza entre as desbotadas reminiscências da rue Florien. Finalmente, acendia um cigarro e se abandonava sobre o braço e sonhava. Sonhava que há muito não se encontravam. Aliás, nem a nenhuma das antigas moradoras da rue Florien.
Estatística reveladora, embora inútil
sábado, 4 de junho de 2005Desde a sua criação, este blogue apresenta arquivo de inserções, incluindo esta, cujas letras iniciais dos títulos revelam o predomínio da vogal A (78) e da consoante P (65).
Ora, as vogais expressam a experiência cromática interior do ser humano. E a vogal A é, obviamente, uma atitude de abertura típica de surpresa e de admiração diante da vida, do cotidiano.
As consoantes, por sua vez, traduzem por imitação algo do mundo exterior. Através dos movimentos da língua, lábios e palato, as consoantes buscam conformar, plasticamente, a aparência exterior dos objetos, como são experimentados pela alma, numa tentativa de reconstrui-la. As consoantes são reproduções da forma ou da natureza exterior das coisas e conferem forma à língua. A consoante oclusiva bilabial surda P evoca um arremesso, uma batida, um suave toque.
Diante dessas informações, conclui-se que este blogue, até os dias de hoje… (obrigado por completar!)
Taxonomia ou Rebanhos tutelados
sábado, 4 de junho de 2005Rx
sábado, 4 de junho de 2005(da série Herméticos em curso)
Fé
Ato de fé
Auto de má-fé