Arquivo de julho de 2005

Olhar – 1

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Busco palavras como quem olha paisagens. Ora as vejo ensolaradas e cálidas (em demasia por vezes), ora nubladas, sombrias como bilhetes desesperados de suicidas. Palavras sancionam paisagens, sempre. E preenchem meus olhos com histórias, vozearias e assombros miúdos. Palavras. Delas sempre sinto saudades.

Panis et circense – 2

domingo, 17 de julho de 2005

Em tempos de agilidade e imprudência, o prof. Jean Lauand, da usp, desvela, para quem a reflexão importa, a prudência aqui.

Breve

domingo, 17 de julho de 2005

A caridade expressa algo de inestimável valor, assim como a fórmula caríssimo amigo expressa o preço de uma amizade. Frente a um amigo que lhe pede algo, a cortesia árabe enfatiza: “Anta gally wa talibuka rakhiz“, isto é, “você é caro e seu pedido é barato”.

Aquarela – 1

domingo, 17 de julho de 2005

Enquanto a história era tecida ponto por ponto, minhas mãos pequenas se apertavam vagorosas. A consciência dos limites de possibilidades e a escassez de palavras e do tempo inundavam a minha escuta. Em meus ouvidos, o enredo anunciava o que viria na minha história e desentocou certezas. Ao final, meus olhos vermelhos teimavam em desfocar o tarbouch negro e venerando do mestre.

Envelhecer – 26

domingo, 17 de julho de 2005

Como os alimentos não nascem na boca, as palavras nascem no coração, Asyd.

Az-zaHar

sexta-feira, 15 de julho de 2005

O passado não passa. Antes, oculta-se nas palavras e nas dobras de minhas memórias. Basta espanar a poeira, ali depositada, e eis que tudo volta. À medida que falo, tudo me lembra os números dos cubos de um jogo: ora momentos de infortúnio, ora êxtases escancarados e sublimes. Provoco desempates ao pronunciar o seu nome ensolarado!

Não confunda

quinta-feira, 14 de julho de 2005

sofista com sufista com surfista.

Um instante no Bairro Alto

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Não por acaso, era início de ensolarada primavera, o jovem se postou ao meu lado: aguardávamos o fluxo dos carros para a travessia da rua. O destino nos unia no instante. Observamo-nos em silêncio: era um arcanjo urbano. Seus cabelos escorriam anelados desde a touca de veludo, insistentemente amarfanhada, até os ombros desnudos e pálidos. Tinha aproximadamente 25 anos. Olhou-me interrogativo, e seus dedos se entrelaçaram. Sem apreensão, embora sem tranquilidade, os olhos espelhavam as constelações ocultas pelo início da manhã. Detive meu olhar em sua barba displicente e amarelada, o registro antepassado de terras altas e frias. Mantive-me em silêncio. Aqui e ali, o suor pontuava-lhe a testa, e a respiração controlava a custo a insuspeitada emoção do momento. Ao redor, tudo se tornou silencioso. Encarei-o como antiga imagem refletida no espelho das memórias. E sorri ao me lembrar de minha própria história e das usuais indagações da época. Havia distâncias imensas entre nós, era nítido. No entanto, também havia lastro comum de esperanças e de urgências. Sim, as urgências, velhas companheiras dessa quadra da vida, estavam ali: caóticas e desnudadas em seu olhar de jovem. E, sem perder a emoção a me invadir, sussurrei-lhe: “Haverá tempo para fazer muito!”. Embora dito com suavidade, o martelo de Thor contraiu-lhe a alma, crispando-lhe o rosto. Tal sobriedade momentânea dissipou-lhe a embriguez citadina e juvenil. Respirou em seguida com leveza, e o rosto se banhou de serenidade. Em segundos, atravessou a rua, agitando os longos cabelos e esboçando sorrisos em minha direção, sorrisos idênticos aos que um dia também marcaram os meus passos.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Debruço-me sobre o dom da vida e recupero as alegrias, tantas e tão variadas, que me proporcionou. Por emoção e por natureza, temo esquecê-las ou embotá-las e torná-las opacas, reduzidas.
Diante da vida, penso nos benefícios que recebi e me reconheço agradecido aos fatos, às pessoas e às circunstâncias em todas as dimensões. Louvo e dou graças, como diria Tomás, aos meus benfeitores e aos obséquios que deles recebi. E, embora insuficiente e embaraçado diante da realidade de não ter como lhes retribuir os insaldáveis favores alcançados, pouco me resta senão, em plenitude, dizer à vida: muito obrigado!

Just an illusion

segunda-feira, 11 de julho de 2005

(para os que têm sede e fome de justiça)

Illusion is everywhere and it’s confortable like a teddy bear.
Sometimes, illusion is the ultimate weapon, real and free.
But ever, illusion is liberty and death.