Na infância, invejei borboletas, abelhas, anjos e sonhei com tapetes voadores. Na juventude, impaciência, arrogância e sarcasmo confundiam minha silhueta com a de um vulcão. Cristalizei-me comedido na maturidade. Hoje, como ostra, só peço não ser importunado nas morosas tentativas de elaborar uma pérola qualquer, se possível.
Arquivo de setembro de 2005
Biografia em curso
terça-feira, 27 de setembro de 2005Slow reading
terça-feira, 27 de setembro de 2005(ao Cadu Nirelo)
Um dia eu era uma nuvem estendida, plana, e meu corpo, apenas vapor de água. Ascendi eufórico, fiz-me floco de lã para, depois, me encaracolar. Trovejei barulhento e chovi. Qualquer arco-iris inflama minha saudade de ser nuvem ainda.
Amanhecer
segunda-feira, 26 de setembro de 2005me desperte assim
em silêncio e sem descuidos
como a austera caixa
aninhada sobre a cômoda
à espera de memórias
me desperte assim
com lampiões e espelhos
para eu me embrulhar
com a luz
e sem reservas cortejar os dias
me desperte assim
com sopros e fragmentos
sem temores ou piedades
me desperte assim
como a terra após as chuvas
como os insetos após a aurora
como os gerânios a perfumar a vida.
Sinto falta de você
domingo, 25 de setembro de 2005Desprezo gravidade, eletromagnetismo e
forças nucleares expressivas ou anêmicas.
Esqueço mitos da criação e narrativas religiosas.
Às vezes, permaneço inócuo, insignificante.
Às vezes, sinto-me exposto e ridículo.
Duradouro apenas o sentimento certeiro.
previsível, humano, nostálgico e simples
como este poema mal acabado, um exercício de estilo.
Herança
quinta-feira, 22 de setembro de 2005De tudo o que voa
guardo o silvo
o vento e a vertigem
De tudo o que voa
guardo o frágil
o instante e o inefável
De tudo o que voa
guardo o ingênuo
a leveza e a fortuna
De tudo o que voa
guardo o brilho da noite
os respingos da chuva
a ausência do chão.
Alquimia
quinta-feira, 22 de setembro de 2005permear segredos
transmutar
separar a terra do fogo
o sutil do que me faz mundano
a glória do mundo
no despertar da
primavera
como você:
oculto na contracapa da Arte.
Alfinete, cabelo
quarta-feira, 21 de setembro de 2005Antônimo da verdade para gravar jamais na pedra.
Fumei a vida, traguei os sonhos
queimei
de tarde
o dia
Com dedos menores que a sombra dos teus pêlos
brilhando névoas
enfim
Silêncio em tudo
e aqui
O pensamento corrói e não viceja
nem depois
Quero acertar ou aceitar?
Dos brilhos do neon
de não
de nem
Falar de mim e selar verdades:
ver
dados
então respiro rejeições repetidas
– continua à espera
em tudo e depois
ou alfinetes
ou cabelos?
Apenas sei do amor
que trago alfinetado
dos cabelos que
mostro no bordado.
Fotograma
domingo, 18 de setembro de 2005A caneta-tinteiro repousa em abandono sobre um papel anônimo, retida em fria e imperturbável inércia. Nela se espreita um silêncio miúdo: nada confessa ou diz a tal caneta. Somente acena com fome de ar e de movimento.
Poema que não se quer eterno
domingo, 18 de setembro de 2005Feridas, esfoladas as palavras
uma a uma acionam céleres
gatilhos em desespero
arfante e
zás
Mercurial
quinta-feira, 15 de setembro de 2005No papel, respirar linhas que ondulam e se alternam como trajetos de seiva a dissolver a imobilidade da alma.