Arquivo de setembro de 2005

Rx anímico

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Há um homem que abre a janela de seu quarto, cuja vista é tão estreita como a minha capacidade de pensar. Atemorizado, como eu, mal consegue divisar nuvens ou o parapeito da própria janela. Incapaz de conjugar verbos no pretérito ou no futuro, sua vontade de caminhar no presente é rasa, plana como a palidez de minhas mãos.

Yoav: deserto e peregrino

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Entre a fartura do suor e o desespero há muito conhecidos,
Yoav, acolhe-me em seu corpo, pele brilhante,
grafite incandescente a escrever sombras
que teimam em iludir meus olhos.
Estranho corpo aceso (ou serão meus olhos?).
De tua pele eriçada, agora escurecida pelo vagar no tempo,
bane o excesso de pudor com estardalhaço,
elimina reservas e mantém o sorriso.
Yoav, deixa entrever dunas como nuca, e pés, e coxas,
e um tremor sutil da impossível geometria.
Anoitece e contemplo com ancestral empenho
as desgastadas encruzilhadas de perigos e,
embora entenda que a luz seja bem-vinda,
o dia acorda em breve para o seu desespero.
E a luminosidade busca-lhe o corpo sem jamais saciar.
Eu também guardo memórias sempre tão presentes
e, como peregrino, nem chego a ser lembrança e,
sem mãos, lhe dedico esse poema

Poema da lágrima

terça-feira, 13 de setembro de 2005

(da série Dispersos, fevereiro 1995)

A lágrima é oceano dos olhos.
É chuva salgada.
É dilúvio a encharcar desertos e exílios.
Afoga raivas, desamarra alegrias, exibe impaciências.
A lágrima não prefere idades:
assalta-nos a todos com igual presteza.
A lágrima profetiza olhos e narizes vermelhos.
A lágrima anuncia o impalpável da alma.
No lenço, na mão, a lágrima é brilho
que se disfarça em silêncio.

Receituário

terça-feira, 13 de setembro de 2005

Incitar a fala
Excitar a escuta
Numa oficina de palavras, remover
as travas, acalmar as horas
de tensão dos dias.

Quero-as em repouso no meu ser
a clarear singelas
o mistério
dos minutos, dos segundos, dos suspiros

a indicar a porta de saída
para o o relógio da vida

a indicar a porta de entrada
para a vastidão dos sonhos

A fala incita
(discreta e breve)
A escuta excita
(escandalosa e longa)

A língua abolida, a atenção contente:
para avistar paisagens eu coleciono palavras.

Da anatomia do sonho

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

(da série Dispersos, fevereiro 1995)

Os sonhos nascem na esteira dos lençóis
Os lençóis que me cobrem sabem a aniz
O aniz é doce e hóspede de meus sonhos
Os sonhos invadem os lençóis
e me fazem companhia
com argumentos invisíveis
Dos risos esquecidos
aos murmúrios de meu corpo inerte
enquanto a vida espera
os lençóis envolvem meu corpo
(são mãos desconhecidas)
O invisível, o esquecido, o inerte
se sustentam estrelados
em meus sonhos de aniz.

Rogatória – II

domingo, 11 de setembro de 2005

Leva dos meus dias as horas
em que me afastei de teu gentil amparo
em que feneci à espera do depois
em que desdenhei a vida a vicejar.

Leva dos meus ouvidos
os passos transtornados de agonias
as lamúrias a inspirar tragédias
as rimas vazias a procurar alentos.

Leva do meu coração os cheiros
dos estertores ruidosos da solidão
dos limoeiros descoloridos da infância
das rotinas insalubres em que a vida se fartou.

Leva de meus olhos
as sombras
os desconcertos
e o tremular inútil de minhas mãos a suplicar.

Destino

sábado, 10 de setembro de 2005

Sentei-me no banco do jardim e não pude deixar de ouvir o diálogo. O mais alto falava macio, quase acariciando, e reagia esquivo quando o mais gordo tecia comentários irônicos e humorísticos. O mais alto insistia com polidez e um quê de ternura. O mais gordo, então, praticava um pingue-pongue com as palavras, flertando com o outro. Com sutileza e mimo, o mais alto dava a impressão de desfrutar de seu modo de falar. O mais gordo insistia na saraivada de comentários arrogantes, cínicos e picantes. Interromperram o diálogo, atravessaram a rua e entraram em um hotel barato. Os padrões de linguagem apontavam para as previsíveis cenas de vida.

Topografia secreta

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Ontem, recebi sua carta: texto lógico, convencional, maçante. Uma paleta de poucas cores e emoções na quase totalidade. O exagero de reticências, no entanto, estimulou minha curiosidade. Afinal, palavras são paisagens. Observei, então, o papel especial, sofisticado como a costumeira atitude de julgar-se e ao mundo. O manuscrito com pressão leve recordou-me seu aperto de mão sempre polido, descomprometido. Ao final de cada linha, suaves mergulhos de letras a traduzir patéticos sussurros. Aqui e ali, salpicavam floreios e ornamentos a guardar distância dos próprios sentimentos. Indecisão e desconfiança compunham o quebra-cabeças do cenário de frases. Decerto, era uma carta para não dizer tudo o que deveria ser dito.

As you know

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Como Sheherazade, narro histórias sem intervalos para superar o medo da morte. Ou melhor, para iludi-la.

Prodigalidade

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Habituei-me às chuvas, aos silêncios. Aquelas conferem disfarce às lágrimas. Os silêncios, vastas solidões.