Arquivo de outubro de 2005

De volta

domingo, 30 de outubro de 2005

Renunciou ao incesto, recusou a perversidade polimorfa e aceitou a genitalidade. Resignou-se

Cada um sonha com o que não tem

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Ele corre atrás da perfeição. Ela desencontra partilhas. Ninguém aspira trivialidades. Ele precisa de sexo. Ela desacelera empenhos. Ninguém espera cuidados. Ele se sabe feliz. Ela se ama em silêncio. Ninguém é órfão nos desejos. Eles são a nova poética. Ninguém vive o tédio.

Impossível rosa

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

do rosa
embriagar-me no espectro
resumir a Criação
em sua cor

em pétala
o rosa
ilumina
o rosa em vida
a latejar

desabrocha profana
no orvalho
a pulsar em silêncio
sagrado

lastra o peito
o aroma
de desejos e
de aurora
os olhos cingir

Holos – II

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Suas mãos me fascinam desde há muito. Como os raios de um sol, seus dedos me contam histórias antigas da respiração cósmica: o recolhimento do inverno em suas tessituras, o rebrotar da vida na Páscoa, o São João em seu verbo de fogo, o combate micaélico em chuvas siderais. Fascino-me em cada mudra, em cada gesto de suas mãos. Elas dançam, elas vêem, elas manifestam.

Holos – I

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Apaixonei-me por seus cabelos. Sempre o fiz. Cada fio resume, a um só tempo, luz e plasma em minhas memórias. Eles escancaram o frescor dos dias que só compreendemos sem palavras, e me fazem despertar para a vida. Do eterno, seus cabelos guardam a acumulação das nuvens, a repetição dos ventos, a enumeração dos sóis. De resto, eles são motivos para a minha paixão, para o meu sofrimento: me instruem e me afastam do inefável. Resta-me apenas enumerá-los na intimidade e diluir a arte de vê-los tecer manhãs em meu passado.

Amsterdam, Salônica, Ahmadabad, tanto faz

sábado, 22 de outubro de 2005

(da série Monólogo interior)

Aprendi com silêncios e desprezo multidões. Apenas rompo auroras e alinho-me com as pedras: sem discursos, apenas ecos. Tanto faz. Ser ninguém, tropismo para o silêncio. Se acumulo aridez é por inércia natural e desejo íntimo de apenas ouvir-lhe a respiração, uma súbita alegria. Partilhar companhia é profetizar decepções. Desde o Mediterrâneo aprendi a fugir de reconhecimento: conhecer é sempre perigoso. Silêncios fortalecem. Palavras anemizam. A erudição é desconfortável. Na quietude tosca, tateio o solo e, sem etiquetas, organizo estratégias de conforto. Em meus olhos, repousam o sol e a lua. O fogo alimenta minha boca. Nos ouvidos acenam as direções do espaço e acolho ventanias, equilíbrios e atmosferas. Auroras conferem aromas. O sabor acre da solidão é apenas mais um sabor. Tanto faz. A essência da terra se exibe em minha aparência pétrea: transformações exigem riscos e suores. Eis a vida: tramas, urdiduras, padronagens, cores, véus, tecidos, mortalhas, o torvelinho devorador da teia de aranha. Aqueço-me no silêncio. Multidões vociferam rebeldias. Não tenho mãos e, por isso, reconheço a mentira e suas essências ocultas: teia, mira, entra, reta, tina, rima, menta, mate, mitra, tema, reina, trina, teima, neta, rena, time, meta, rema, trame, tira, tina, teimar, minta! Tanto faz. O tempo é convenção, a eternidade, consciência. Silêncio: leio, ecos, cone, lince, selo, néscio, íleo, sino…

Envelhecer – 27

sábado, 22 de outubro de 2005

Dissabores passados alimentam acertos futuros, Asyd.

Gratidão

sábado, 22 de outubro de 2005

Webmaster, suas mãos brincam com letras e surpreendem os meus olhos. Sua gentileza me emociona. Sou-lhe grato. Eternamente.

Um outro em mim

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

ele sabe minhas paisagens
mais veladas
meus estorvos já distantes
e os presságios
que esqueci.
por vezes se faz bondoso
em outras, investe e me açoita
para o bem ou para o mal.
ele conhece os véus estirados
e o arco tenso de
minha voz
e espreita as mordaças ocultas
e os austeros acordes de
meus dedos desatentos.
ainda agora escorregou suspeito
e se fez, banhado em poesia,
sombra de mim.

Vida digital

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

(para o Webmaster)

Brilhante a citação do post de ontem. Agora que o meu dedão começa a evoluir, já percebo que posso utilizá-lo melhor. Obrigado!