Amsterdam, Salônica, Ahmadabad, tanto faz
(da série Monólogo interior)
Aprendi com silêncios e desprezo multidões. Apenas rompo auroras e alinho-me com as pedras: sem discursos, apenas ecos. Tanto faz. Ser ninguém, tropismo para o silêncio. Se acumulo aridez é por inércia natural e desejo íntimo de apenas ouvir-lhe a respiração, uma súbita alegria. Partilhar companhia é profetizar decepções. Desde o Mediterrâneo aprendi a fugir de reconhecimento: conhecer é sempre perigoso. Silêncios fortalecem. Palavras anemizam. A erudição é desconfortável. Na quietude tosca, tateio o solo e, sem etiquetas, organizo estratégias de conforto. Em meus olhos, repousam o sol e a lua. O fogo alimenta minha boca. Nos ouvidos acenam as direções do espaço e acolho ventanias, equilíbrios e atmosferas. Auroras conferem aromas. O sabor acre da solidão é apenas mais um sabor. Tanto faz. A essência da terra se exibe em minha aparência pétrea: transformações exigem riscos e suores. Eis a vida: tramas, urdiduras, padronagens, cores, véus, tecidos, mortalhas, o torvelinho devorador da teia de aranha. Aqueço-me no silêncio. Multidões vociferam rebeldias. Não tenho mãos e, por isso, reconheço a mentira e suas essências ocultas: teia, mira, entra, reta, tina, rima, menta, mate, mitra, tema, reina, trina, teima, neta, rena, time, meta, rema, trame, tira, tina, teimar, minta! Tanto faz. O tempo é convenção, a eternidade, consciência. Silêncio: leio, ecos, cone, lince, selo, néscio, íleo, sino…