Da arte de sentir dor

(para Cadu Nirelo, in memoriam)

Cultiva-se um jardim, segundo as possibilidades. Cerca-se de cuidados e atenção regulares, virtudes suficientes para transpor os céus para a terra. Com as mãos nuas, toca-se cada espécie sem restrição nem reserva. Amplia-se a visão para as sutilezas das folhas, para o calendário das regas e das podas sempre necessárias, para a microvida que se espalha em cada centímetro do terreno e da alma. Desenvolve-se simpatia, a forma primeira de sentimento entre os humanos, pelo substrato, pelas espécies, por tudo enfim que a ele diga respeito. A freqüência de cuidados pelo jardim confere intimidade para reconhecê-lo em minudências e para lhe antecipar cuidados.
Num frescor da manhã, o jardim desaparece. Simplesmente desaparece. A perda, a privação absoluta e o vão esforço em restaurá-lo ao convívio resultam em desolação. Instala-se a dor, o sintoma da dor. Exposto à plenitude da luz, surgem cores e sons, múltiplos, infinitos, perfurantes, graves, abrasadores, agudos, gélidos, sufocantes. Ouve-se, então, o grito do cortejo da angústia, elegia no tempo, a anunciar mudanças na atmosfera da alma. Pela manhã, um véu escuro se encarrega de ocultar o horizonte: céu e terra se fundem disformes. Na obscuridade, sem o tato, vaga-se em direção ao nada, em direção à morte.

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