Arquivo de outubro de 2005

Mundo chega

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Saiu hoje na Folha de São Paulo:

Mariana Barros
Enviada especial a Nova York

Se compararmos a rotina que tínhamos há dez anos com a que temos hoje, encontraremos diferenças impressionantes. A principal transformação surgiu – e continua ocorrendo – com advento da internet.
A navegação dinâmica, a interatividade de virtual, a democratização da publicação de idéias e as redes de troca de conteúdo e de mensagens mudaram por completo nossa relação com o mundo e poderiam estar contribuindo até mesmo para que nos tornemos mais inteligentes, segundo avaliam alguns cientistas.
O simples ato de fazer uma compra pela internet já demanda inúmeras e novas habilidades em relação às que uma compra normal exige, pois é preciso analisar e comparar uma grande quantidade de informação.
O pensamento crítico também é algo constantemente exercitado quando estamos conectados, já que precisamos criar espécies de filtros mentais para extrair da vasta quantidade de informação disponível na rede o que nos interessa.
A transformação decorrente desse novo estilo de vida é tão profunda que alguns pesquisadores defendem a idéia de que deixamos de ser homo sapiens sapiens para nos tornarmos uma nova espécie: homo digitas – homem digital.
Jonathan Zittrain, co-fundador do Berkman Center for Internet and Society, centro de pesquisas sobre internet e sociedade da Universidade de Harvard, diz que o homo digitas é uma criatura que se senta numa poltrona, olha fixamente para uma tela e não sabe o que fazer se não tiver um sinal digital disponível.
Zittrain contou à Folha, por e-mail, do que se trata esse novo capítulo da história humana.

*

Folha – Como o homo digitas difere do homo sapiens?
Jonathan Zittrain
- O homo digitas é alguém que interage com o mundo por meio de uma rede digital. Hoje, essa conexão é feita por meio de computadores e de televisores, mas amanhã poderá englobar outros meios de informação.

Folha – Qual a melhor mudança que a tecnologia trouxe para a vida humana?
Zittrain
- A melhor delas, sem dúvida, foi a possibilidade de nos expressarmos perante o mundo e de podermos conhecer e interagir significativamente com pessoas com as quais, de outra maneira, jamais teríamos a chance de encontrar.

Folha – E a pior?
Zittrain
- Foi a substituição do conhecimento pela astúcia. Acreditamos que com uma busca no Google saberemos sobre qualquer coisa e preferimos isso a aprender as coisas de verdade uns com os outros.
Falta saber se o futuro da internet será um cenário em que a verdade virá de fontes múltiplas, independentes e críticas, ou se será controlada por apenas alguns monopólios.

Folha – Que tipo de relação passamos a estabelecer com nossos aparelhos eletrônicos? Eles são dominados por nós ou nós é que somos dominados por eles?
Zittrain
- É assustadoramente fácil se tornar dependente da tecnologia, ainda mais quando temos cada vez menos espaços em que ela não está presente. Experimente levar embora o [smartphone] Blackberry de alguém e você verá uma pessoa em pânico.

Folha – A internet esta se tornando uma maneira de aproximar as pessoas, formando comunidades globais, ou de separá-las cada uma em sua respectiva maquina?
Zittrain
- O maior competidor da internet é a TV, e não os encontros sociais. Mas acho que, enquanto nela houver espaço para que as pessoas possam interagir umas com as outras em vez de apenas baixarem conteúdos de entretenimento, a rede será benéfica.

Folha – A tecnologia mudou nossos sentimentos?
Zittrain
-Ainda é cedo para saber, mas é uma boa questão.

Folha – Que tipo de vida podemos esperar viver dentro de cinco ou dez anos?
Zittrain
- Isso dependerá essencialmente dos rumos que serão tomados pela internet. Ela poderá se tornar tanto uma espécie mais poderosa de TV quanto continuar permitindo inovações artísticas e tecnológicas criadas por amadores.

PS: A mão humana se diferencia da dos macacos por possuir um dedão mais longo e em posição que permite pegar objetos com maior força e precisão. O meu dedão só serve para pressionar a barra! Isso quando o computador não dá pau ou quando não acaba a luz!

Vogalário

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

(para o Webmaster)

a, e, i, o, u
a de abelha, e de elefante, i de igreja,
o de ovo, u de unha.
a, e, i, o, u
O a tem periscópio curioso para explorar o que não vejo.
O e é um caracol silencioso e pensativo.
O i fala com a cabeça empertigada.
O o me acolhe num abraço sem fim.
O u é o graal a zelar pelos mistérios.
a, e, i, o, u

Despertar

domingo, 16 de outubro de 2005

Ouvi a chuva, descobri harmonias e me fartei de tranqüilidades ao olhar seu brilho generoso e livre. Aos ecos e borbulhos preparo os olhos com a simplicidade de gestos e alfabetizo minhas mãos com palavras ditadas pela brisa.

Na estrada

domingo, 16 de outubro de 2005

A púrpura empalidece
no tempo.
Não a desprezo.
Evoca-me habilidade
para intervalos.

Frente ao efêmero.
livro-me de tédios.

Presença de prazer

domingo, 16 de outubro de 2005

Convido palavras para celebrar instante de visível poesia.
Assomam desordenadas:
crianças à espera de reconhecimento, de mérito.
Tão frágeis, tão curiosas,
tão inquietas.
Num emaranhado de cipós, se alternam,
me prendem, se espalham belas e precárias.
E, vicejam qual anônimas floradas simples,
doces na matéria,
prazerosas no estar.
A escrita cheira a mato.
É nuvem de outros tempos,
de outras latitudes de mim.

Desalentos miúdos

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Nas casas enxameadas pelas festas (barulhentas e previsíveis)
onde houve janeiro o sol se abre, clama o calor no trópico
infernal (transpiro) tudo derrete como a fleuma do herói
em passadas largas sobre a areia, apenas o instante permanece:
os pregões vazios, o despudor vadio dos corpos em desalinho
na corriqueira demanda pelo ócio; imaginei-me feliz
embora menos que o vizinho incógnito como sempre.
Não divisei pressas, apenas cabeças inclinadas a fugir da luz
nesta distante terra de cansaço e preguiça. O tempero da vida
se fez pelo abandono de intenções ou quase.
Dormitei na areia (disfarce para a fera com ausência de fúria)
em uma tira de sombra, temperado pelo sal
e ressecado pela indiferença.
No despertar do ano, esbocei planos que o sol derreteu.

Outra vida sem perdão

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Da memória, o que me resta
dentre tantos episódios sem clareza
é o que se faz sem fazer:
o iminente arrebatado
de minhas mãos e cabeça
sem estardalhaço ou intenção
como a paisagem azul
que se tinge de cinza
e anuncia temporal ou anoitecer.
O céu sem nuvens e o mar sem ondas
é engano de principiante
ao estudar o mistério das coisas.
Apiedo-me de aves sem asas
como eu.

Pegar, metáfora do início

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Fogem de minhas mãos
o sol e a chuva
como textos que sonhei escrever.

Fogem de minhas mãos
a chuva e o sol
para eu aprender ou esquecer.

Fogem de minhas mãos
o espanhol, a viúva
e todas as bruxas
que se penteiam
e se vestem de luto.

Da arte de sentir dor

terça-feira, 11 de outubro de 2005

(para Cadu Nirelo, in memoriam)

Cultiva-se um jardim, segundo as possibilidades. Cerca-se de cuidados e atenção regulares, virtudes suficientes para transpor os céus para a terra. Com as mãos nuas, toca-se cada espécie sem restrição nem reserva. Amplia-se a visão para as sutilezas das folhas, para o calendário das regas e das podas sempre necessárias, para a microvida que se espalha em cada centímetro do terreno e da alma. Desenvolve-se simpatia, a forma primeira de sentimento entre os humanos, pelo substrato, pelas espécies, por tudo enfim que a ele diga respeito. A freqüência de cuidados pelo jardim confere intimidade para reconhecê-lo em minudências e para lhe antecipar cuidados.
Num frescor da manhã, o jardim desaparece. Simplesmente desaparece. A perda, a privação absoluta e o vão esforço em restaurá-lo ao convívio resultam em desolação. Instala-se a dor, o sintoma da dor. Exposto à plenitude da luz, surgem cores e sons, múltiplos, infinitos, perfurantes, graves, abrasadores, agudos, gélidos, sufocantes. Ouve-se, então, o grito do cortejo da angústia, elegia no tempo, a anunciar mudanças na atmosfera da alma. Pela manhã, um véu escuro se encarrega de ocultar o horizonte: céu e terra se fundem disformes. Na obscuridade, sem o tato, vaga-se em direção ao nada, em direção à morte.

Exercícios

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Banir histórias, relatos e apegos.
Dispersar enredos e abrandar tramas e sorrisos.
Simplificar narrativas, encontros, textos, presenças.
Eliminar palavras, episódios, personagens.
Retirar páginas e memórias tantas.
Pulverizar estilos e vontades.
Aconchegar silêncios.
Apagar imagens.
Esquecer-te.