Arquivo de novembro de 2005

Gelsenkirchen, Mashhad, Addis Abeba: fragmentos

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

(da série Monólogo interior)

Em cada paisagem, esbocei vagos desamparos e reuni entusiasmos consistentes para os que me cercavam. A lembrança do sol se fez permanente em minhas retinas. Inoportuno como saudar e não ter resposta. Somente uma impressão. O tempo passou por meu rosto, delicados poemas morreram no ar. Nada mais. Aferir decepções, para quê? Viver plenitudes foi o pacto para com a vida, para com a minha vida. Em cada silêncio insisti em dizê-lo. Dispensei rascunhos, aprofundei-me em vida e retornei aos domingos de chuva

Terapêutica

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Tornei-me vento para buscar companhias.

Há sonhos

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Há sonhos trancafiados entre loucos, íntimos de constelações, avessos a disciplinas. Deles guardo a silhueta oscilante, improvisada. Há sonhos que partiram com a morte e de que restou apenas uma foto e um bilhete impreciso. Há sonhos retidos nos cantos de minhas unhas

Em nome da solidão

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Eu que não sei da chuva, trago em meus olhos pálidos a apatia da loucura e, em minha pele, o azedume de pedras e de sóis. Eu que me tornei riacho sonolento guardo memórias tardias de cores e de brilhos, sem mesmo saber chorar. Eu que abriguei preguiças, orgulhos e iras, alberguei dores, falei com voz grave e adormeci o olhar. Eu que caminhei em desequilíbrio e recusei apertos de mãos, mantive meu olhar longe de todos e, como luz condensada, chovi sobre a cidade.

Aquarius

sábado, 19 de novembro de 2005

Dos delírios caóticos cultivei aspiração ao melhor. E reuni memórias com a urgência impulsiva de quem recolhe roupas no início da chuva. Temia que os sonhos desbotassem e, com eles, o meu olhar. Entre o eterno e o perecível fiz da vida teimosia.

Escovei o tempo

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Escovei o tempo
em lúcido querer
agora a minha vida
tornou-se caverna livre
tornou-se candelabro azinhavrado
como todo o resto.

E todo o resto
é simples
como os meus versos
sem nada para dizer.

Eclesiastes

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Tempo de despertar
tempo de não despertar
queimar tristezas
e recordar
e recompor
e me sentir sereno
em não apenas ser.

Inked

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Quando eu era papel sonhei com mãos prudentes a tecer histórias que o tempo dispersou. Quando eu, ainda, era flores de laranjeira só o vento escreveu em minhas sombras. E, desde então, bastou-me o tempo e o vento para recordar o que não tive. O sonho se alojava em meus olhos a fomentar o imprevisível. No corpo uni os pontos a mim ofertados, para completar o desenho do homem desconhecido. Quando eu era mistério costurei a solidão do cosmo. Uma noite sem pressa para adormecer.

Observar – I

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Por breves instantes, refugiou-se um pássaro na janela da sala. Permaneci imóvel diante dessa intimidade fortuita. Que vaticínios ou divinas mensagens me trazia de sua morada nas nuvens? Observei-lhe a aparência despojada. A leveza emplumada a falar de uma vida livre, mergulhada em dimensões luminosas, sem quase tocar o planeta com membros apenas esboçados, diminutos, quase desnecessários. Olhos atentos e sábios em sua irriquieta cabeça. Bem próximo a ela, um coração a tecer cantos e rimas suaves. Em segundos, ele alçou vôo peregrino e exibiu-se irradiante rumo ao inalcançável.
No silêncio, acudiu-me a rotina pesada de meus passos, a tímida visão de rumos em minha história, a ausência de entusiasmo nos pensamentos e nas palavras dos que me rodeiam.

Les très riches heures ou Iluminuras para o povo brasileiro

terça-feira, 15 de novembro de 2005

(som da Marcha Fúnebre)

Ascensão (ao Planalto)
Anunciação (aos desdentados)
Os Apóstolos (hehe!)
Ele alimenta o povo (Fome Zero)
Os jardins do Éden (brasílico)
A fuga (em avião novinho)
A anatomia (mutilada) do Homem