Arquivo de novembro de 2005

24 de novembro de 2005

Gelsenkirchen, Mashhad, Addis Abeba: fragmentos

(da série Monólogo interior)

Em cada paisagem, esbocei vagos desamparos e reuni entusiasmos consistentes para os que me cercavam. A lembrança do sol se fez permanente em minhas retinas. Inoportuno como saudar e não ter resposta. Somente uma impressão. O tempo passou por meu rosto, delicados poemas morreram no ar. Nada mais. Aferir decepções, para quê? Viver plenitudes foi o pacto para com a vida, para com a minha vida. Em cada silêncio insisti em dizê-lo. Dispensei rascunhos, aprofundei-me em vida e retornei aos domingos de chuva à beira-mar. Entristeci-me por vezes. Desiludir-me jamais. Não acredito em ilusões, somente em esperanças. Estas diferem pela condição do estar, jamais do ser. Anteontem, arrematei-as em um buquê (as esperanças) e presenteei-me com prazer reverente. Retornei das férias. Eliminei qualquer incompetência do olhar por terras longínquas. Até breve, insisto em dizer para mim mesmo.

Terapêutica

Tornei-me vento para buscar companhias.

Há sonhos

Há sonhos trancafiados entre loucos, íntimos de constelações, avessos a disciplinas. Deles guardo a silhueta oscilante, improvisada. Há sonhos que partiram com a morte e de que restou apenas uma foto e um bilhete impreciso. Há sonhos retidos nos cantos de minhas unhas à espera da passagem dos bocejos frente a um discurso vazio. Há sonhos sem explicitar intenções e a se revestir de fugacidades. Em todos eu existo como parte de um ofício.

22 de novembro de 2005

Em nome da solidão

Eu que não sei da chuva, trago em meus olhos pálidos a apatia da loucura e, em minha pele, o azedume de pedras e de sóis. Eu que me tornei riacho sonolento guardo memórias tardias de cores e de brilhos, sem mesmo saber chorar. Eu que abriguei preguiças, orgulhos e iras, alberguei dores, falei com voz grave e adormeci o olhar. Eu que caminhei em desequilíbrio e recusei apertos de mãos, mantive meu olhar longe de todos e, como luz condensada, chovi sobre a cidade.

19 de novembro de 2005

Aquarius

Dos delírios caóticos cultivei aspiração ao melhor. E reuni memórias com a urgência impulsiva de quem recolhe roupas no início da chuva. Temia que os sonhos desbotassem e, com eles, o meu olhar. Entre o eterno e o perecível fiz da vida teimosia.

18 de novembro de 2005

Escovei o tempo

Escovei o tempo
em lúcido querer
agora a minha vida
tornou-se caverna livre
tornou-se candelabro azinhavrado
como todo o resto.

E todo o resto
é simples
como os meus versos
sem nada para dizer.

17 de novembro de 2005

Eclesiastes

Tempo de despertar
tempo de não despertar
queimar tristezas
e recordar
e recompor
e me sentir sereno
em não apenas ser.

Inked

Quando eu era papel sonhei com mãos prudentes a tecer histórias que o tempo dispersou. Quando eu, ainda, era flores de laranjeira só o vento escreveu em minhas sombras. E, desde então, bastou-me o tempo e o vento para recordar o que não tive. O sonho se alojava em meus olhos a fomentar o imprevisível. No corpo uni os pontos a mim ofertados, para completar o desenho do homem desconhecido. Quando eu era mistério costurei a solidão do cosmo. Uma noite sem pressa para adormecer.

15 de novembro de 2005

Observar - I

Por breves instantes, refugiou-se um pássaro na janela da sala. Permaneci imóvel diante dessa intimidade fortuita. Que vaticínios ou divinas mensagens me trazia de sua morada nas nuvens? Observei-lhe a aparência despojada. A leveza emplumada a falar de uma vida livre, mergulhada em dimensões luminosas, sem quase tocar o planeta com membros apenas esboçados, diminutos, quase desnecessários. Olhos atentos e sábios em sua irriquieta cabeça. Bem próximo a ela, um coração a tecer cantos e rimas suaves. Em segundos, ele alçou vôo peregrino e exibiu-se irradiante rumo ao inalcançável.
No silêncio, acudiu-me a rotina pesada de meus passos, a tímida visão de rumos em minha história, a ausência de entusiasmo nos pensamentos e nas palavras dos que me rodeiam.

Les très riches heures ou Iluminuras para o povo brasileiro

(som da Marcha Fúnebre)

Ascensão (ao Planalto)
Anunciação (aos desdentados)
Os Apóstolos (hehe!)
Ele alimenta o povo (Fome Zero)
Os jardins do Éden (brasílico)
A fuga (em avião novinho)
A anatomia (mutilada) do Homem