Arquivo de dezembro de 2005

Literatura explícita

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

O grupo de amigos, intelectuais e especialistas, reflete sobre a produção literária do ano que termina. Em resumo, a avaliação final se mostrou algo previsível. O primeiro posto, é claro, ficou para uma boa e saudada reedição. No quesito popular, venceu a produção marginal da periferia, descartadas as escatologias glamurizadas.
Estranhamente, surgem longo comentários sobre um jovem poeta, estilo de composição um tanto deslocada entre livros básicos e sucessos editoriais.
Comentou-se e analisou-se trechos da obra de cada um dos autores.
Após a generosa aula de literatura, confirmei o que sempre soube: o parecer da mídia e dos críticos profissionais é sempre chata e transforma o ato de ler numa somatória de novidades e de apelo comercial.
A boa literatura se faz com criatividade, boas doses de entretenimento e, acima de tudo, compromisso com o Belo.

Questionamento

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

No jardim, observo as pedras: minerais de matéria inerte, morta. Logo adiante, despontam plantas vivas a transformar o mineral em substância dinâmica e a realizar trocas gasosas. Pelos cantos do jardim, minhocas, borboletas e gatos se expandem, se contraem, respiram, caminham livres, segundo preferências e aversões, simpatias e antipatias. Enquanto caminho, sei-me competente para me perceber e para refletir. Explicito escolhas e vontades, mantenho a postura ereta em um corpo que é instrumento de liberdade. Sou capaz de dizer eu.
Afinal, o que me impede de exercer a plenitude?

Essencial

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Carrego um outro em mim. Eu que não tenho mãos, exponho dele certezas de gestos brandos em constante exclamação diante de tudo. O outro em mim se desbota quando me recuso a sorrir frente aos mistérios dos homens e de suas falas. Carrego esse outro em mim. Ele me ensina a decifrar enigmas com a leveza dos que insistem em afastar sombras do caminho. Eu faço dele suporte para as minhas reiteradas espirais de dúvidas. Embora eu não tenha mãos, o outro em mim me faz reconhecer a fugidia presença de mundos em cada palavra como espelhos antigos a desvendar o eterno. Sei-me instável em percebê-los, sei-me descuidado em reverenciá-los. O outro em mim trespassa-me os pensamentos e evoca as intenções das coisas e das palavras. E me acolhe e me sinaliza horizontes diáfanos e partilha sabedorias miúdas. O outro em mim habituou-se a me dizer: fica em paz desde sempre.

Desnudar-se

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Minhas vistas são bemóis
e acalantos que adormecem
a pressa em
entender-me e ao Pai.

Minhas fomes são auroras
irisadas,
anônimas, vulgares
a isolar tardios arrependimentos.

Meus silêncios são
de losna e de baunilha
e coroam e submetem
a vontade de gritar.

Meus cheiros são
veludos asfixiantes ao
toque ou passamanarias fúnebres
a desafiar minhas vontades.

Meus dedos tateiam
distâncias e nuvens
e sempre penso que
haverá mais.

Antes do crepúsculo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Nos ossos,
a cristalina verticalidade de meu ser
ascende em direção ao cosmo.

Na saliva,
me dissolvo abnegado
e abrigo a calidez que sinto pela vida.

Na voz,
sinuosos movimentos da alma
insistem na busca, em liberdade, de outras paisagens.

Em meu coração,
arde apenas o desejo de saudar
a todos os que me visitam: felizes festas!

Considerar

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Antes de inaugurar o outono,
do avesso da pele vou retirar estilhaços e inquietudes.
Bastará talvez, talvez me engane.
A partir de então, a estética
se fará tirana a murmurar solidões.
E mesmo que você desacredite
a sombra será meu abrigo e esperança.
Bastará talvez.

Agenda 2006

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Desapego, perspicácia, controle da fala e do pensamento, serenidade, determinação. Espero conseguir. Espero!

Envelhecer – 28

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

A mente só se ilumina verdadeiramente com o calor do coração, Asyd.

Escrever, escrita, escritor

sábado, 17 de dezembro de 2005

Escritor é quem escreve palavras, eu as rabisco. Rabisco-as anônimas como pedaços de paisagens interiores. Rabisco letras e acentos gráficos até que o desenho simples se faça cenário provocante e, depois, contemplação. A cada rabisco, a cada gesto, as paisagens se aprumam para serem vistas, não lidas. Livres de ostentação e de pressa, os rabiscos pairam e apontam fatias de mim.

Of course

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

adiantei o braço e esbarrei
no tempo
forjado em azuis, forjado em azuis
crispei os dedos e antecipei futuros
o olhar inquieto e a boca cerrada
a insinuar despedidas, a insinuar despedidas
em breve, a paz ficará por aí
como um casaco velho, a lua de verão ou um relógio qualquer
é fácil calar, é fácil calar
o difícil é ouvir.