Carrego um outro em mim. Eu que não tenho mãos, exponho dele certezas de gestos brandos em constante exclamação diante de tudo. O outro em mim se desbota quando me recuso a sorrir frente aos mistérios dos homens e de suas falas. Carrego esse outro em mim. Ele me ensina a decifrar enigmas com a leveza dos que insistem em afastar sombras do caminho. Eu faço dele suporte para as minhas reiteradas espirais de dúvidas. Embora eu não tenha mãos, o outro em mim me faz reconhecer a fugidia presença de mundos em cada palavra como espelhos antigos a desvendar o eterno. Sei-me instável em percebê-los, sei-me descuidado em reverenciá-los. O outro em mim trespassa-me os pensamentos e evoca as intenções das coisas e das palavras. E me acolhe e me sinaliza horizontes diáfanos e partilha sabedorias miúdas. O outro em mim habituou-se a me dizer: fica em paz desde sempre.