Arquivo de janeiro de 2006

Quase fevereiro

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

(ao Cadu Nirelo)

O primeiro mês se finda. Gostava mesmo de que o ano estivesse a começar para reescrever a agenda do ano novo. Gosto mesmo é de recomeços.

Frestas de mim

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Meus olhos reduzem distâncias,
metrificam contornos,
recuperam paisagens.

Minha voz assobia distraída
e, quando chove,
reproduz o vento a cantar saudade.

Minha pele se alvoroça imprudente
e se dilui serena quando toco em você.

Minhas fomes são de abraços.

Perfumo os dias com mansidão.

Festas de mim (d’après Rimbaud)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Minha surdez apruma sabores de
açúcar queimado, indiferentes
ao tempo,
vitrificados ao léu.

Minha inanição verte dissonâncias:
a vida se espraia apaixonada,
ampla, vicejante
a aquecer rimas e memórias.

Meus cheiros são asfixiantes veludos,
verticalidade de linhos e
retalhos de então.

Minha cegueira se proclama
em busca de terras desérticas,
vastidões e tâmaras
(o negrume de seus olhos, quem sabe?)

Minhas texturas são o índigo,
o cerúleo
e sílabas a prenunciar e a instigar.

Felicidade: roteiros mínimos

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006
  • Ampliar moderações, inalar compaixão, discernir.
  • Perseverar, partilhar cortesias, cultivar coragens.
  • Purificar-se, tranqüilizar-se, ouvir.
  • Afugentar desprezos, aquecer as mãos, abrigar o amor.

A tontura que precede o baque do corpo

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Eu que colecionei tatos, manhãs e cristais, eu que invoquei conjunções estelares, eu que não esperei nada. Eu que transformei as mãos. Sombras perfumadas, devaneios baldios, varandas enevoadas, acordes breves foram necessários para diluir excessos de sobriedade. Eu que desafiei planícies ao perambular oscilante, que fiz de Bizâncio o meu porto para a vida, eu que assoprei nuvens para me aproximar do sol, quando menos se esperava, me afastei das palavras para escutar o vento. Menino impaciente, homem a espreitar, lábios que abrigam canções. Eu que me libertei de ódios e adormeci por imensos e inexplicáveis motivos, arrisco a me livrar do espaço e celebro o verão emocionado. Eu que me fiz contente e alucinado, ressuscitei árvores, animais e sonhos, não impeço que a neblina se manifeste. O tempo tem a duração de minhas preces. O mundo, eu o sei misterioso.

Des(a)tino

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

E se quisessem os demônios, que este tão ilustre e tão numeroso público leitor saísse hoje tão desenganado do blog, como vem enganado pelo blogueiro? Esta é toda a história, e toda é a vida a nos fazer de vítimas, sempre o mais comum e certo.
Ainda no outro século, surgimos na vida um do outro e contamos histórias de um tempo mais antigo e histórias de tempo que haveria de passar.
E como os alimentos se transformam completamente para manter a vida corpórea, os encontros e nossas histórias alimentariam a vida da imaginação. Nossas histórias, porém, não se diluiram, não se transformaram: eram muitas, eram rápidas e demasiado abstratas para serem digeridas. Nossos encontros não mais existem, é certo. As histórias, no entanto, se tornaram memórias indigestas, obsessões a se repetir indefinidamente, fixas, rígidas, automáticas, autônomas, sem coração. Não as vomito: elas alimentam minha loucura.

Aqui, ó, entre a garganta e o peito – II

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

…A voz desbotada, sem ecos, a construir solidões.

Envelhecer – 31

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Somente nos tornamos humanos quando estamos preparados para aceitar a dor, Asyd.

Oração ao meu irmão

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Irmão meu que estás na Terra,
abençoado seja o teu nome
e o de tua descendência;

ajuda-me a proteger o nosso planeta,
exerce a tua vontade
em harmonia com o teu pensar
e com o teu sentir
no ar, na terra e no mar.

Agradece o pão de cada dia;

acolhe o próximo
e tem compaixão por suas fraquezas,
santifica a vida com humildade,
desapegado dos auto-elogios,
livre de todo o mal.

Pois nosso é o desafio,
o arbítrio e o aprimoramento para sempre.

Que assim seja.

Envelhecer – 30

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

O que brilha na alma aflora ao se eliminar a indolência, Asyd.