Arquivo de janeiro de 2006

Escaninho – 3

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Mergulhei em águas esquecidas de um canto qualquer do planeta. Mergulhei em águas barrentas, insuficientes para ocultar o rubor de meu rosto, para sufocar vontades e tremores, para a vida de se tornar fatal. Mergulhei em águas fugidias para me dissolver e

Escaninho – 2

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Imaginei histórias muito simples para afugentar tempestades miúdas. Imaginei histórias solenes para entreter o tempo, abrigar-te perto e pulverizar desafios. Imaginei histórias longas para misturar lembranças pálidas e alegrias antigas. Tornei-me parte de todas elas e procuro azuis variados para preencher cabeçalhos, bálsamos leves para esmaecer descrenças, abraços longos para aquecer enredos. Sou histórias que não findam e todas procedem de ti.

Escaninho – 1

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

O sorriso largo supre a ausência de palavras a confundir e a ocultar. Tomo a estrela por nome, flutuo largo como convém

Envelhecer – 29

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Assim como o alimento mantém a vida, a memória sustenta a alma, Asyd.

Atalaia

sábado, 7 de janeiro de 2006

A toalha da mesa se inflama com bordados e papéis. O silêncio da porta esclerosa as emoções. A companhia da chuva insiste em diluir minhas passadas superficiais. Além dos limites da vista, a alma permanece atenta.

Sabor

sábado, 7 de janeiro de 2006

Peguei a fruta e levei-a

Presente de Reis

sábado, 7 de janeiro de 2006

Combinamos um encontro, eu sei. Mas me esqueci, me confundi, perdi a hora. Ou melhor, me distraí com uma pequena folha caída sobre o tapete. Sim, era apenas uma pequena folha, uma folha qualquer sem nenhuma identidade, anônima, exceto pela presença invulgar e não esperada. Ao primeiro olhar, flertou-me tímida. Respondi com supresa e desviei os olhos para as partituras da estante. Recompus-me e a encarei pela segunda vez. Estava lá, agora mais luminosa. Parecia um delicado borrão verde sobre o tapete vermelho. Enterneceu-me sua visão delicada e, de repente, as cores ampliaram o meu coração. A sinfonia se iniciava nas cores e me remetia aos acordes de uma peça esquecida, distante. Aproximei-me com solenidade da pequena folha e permaneci em silêncio por instantes. Seus tons de verde me brindavam com o frescor de outras memórias, de outros encontros. Houve um tempo em que todas as folhas pareciam me pertencer, assim eu acreditava. Depois, bem, depois tantas outras coisas que pensei também serem minhas, exclusivamente minhas, me foram subtraídas. Continuei a olhar para a pequena folha. De pintura que era, insinuou a forma e desabrochou como letra. Era arredondada, um quase círculo, uma vogal cuja forma envolveu-me os olhos, o corpo, o labirinto de ossos, o emaranhado de tendões num abraço delicado, terno, inesperado. E assim permanecemos. Algum tempo depois afastei-me e pude ler e entender a sutil mensagem. E abracei o passado, o vozerio das outras crianças, as incertezas e as descobertas da adolescência, os mares de alegrias e os vendavais de preocupações da universidade, os caminhos empoeirados e desérticos das decisões e os infinitos momentos de certeza de que gosto da vida. Eu me distraí, é verdade, e me esqueci de nosso encontro. Porém, quero que saiba: você é o meu presente de Reis!

Baldio

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Algumas palavras, as de sempre, me ajudam a construir uma simples casa. Com disciplina, alinho cada estrofe, meço rimas uma a uma, diluo todos os versos e negocio métricas. Depois, na varanda, paro os relógios em companhia de chuvas miúdas e teias de indecifrável escrita.

Entreato

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

primeiro algum silêncio
e a espera de gestos
para perfumar os dias
e abrandar o desterro.

primeiro algum silêncio
e a espera de auroras
para lhe confirmar a presença
e me declarar vivo.

primeiro algum silêncio
e